Não é raro encontrar por aí gente muito jovem, mas com costumes religiosos antigos e ultrapassados. São gestos e sinais de piedade que ficaram esquecidos no passado por um tempo e que retornam às comunidades eclesiais com ar de seriedade cristã. Tais práticas caracterizam um modismo conservador que conquistou a simpatia de alguns que parecem mais católicos que o papa. Dentre essas práticas, destaca-se o estranho gesto de comungar de joelhos.

É bem verdade que as legislações internas da Igreja permitem ao cristão comungar como bem deseja: de pé, ajoelhado, assentado e até deitado (caso ele esteja doente, é claro), podendo a comunhão ser dada na mão ou na boca… Mas um pouco de bom senso e de teologia não fazem mal a ninguém. Ou vamos aderir à teologia do absurdo do humorista pastor Adélio (vídeo disponível em youtube)?

Outro dia, escutei da boca de um jovem que ele só comunga ajoelhado. Ao ser interrogado acerca dos motivos que o levam a tal prática, respondeu prontamente que era por devoção à santa eucaristia. Ora, mas será a eucaristia objeto de devoção? Que teologia sustenta essa prática? Que compreensão de eucaristia têm aqueles que assim o fazem? Certamente não é a compreensão que advém dos relatos da instituição da eucaristia presentes nos Evangelhos ou dos relatos de fração do pão presentes em Atos ou nas Cartas Paulinas.

Nos relatos das Escrituras, a eucaristia é uma refeição. Nessa refeição, Jesus se deu nos sinais do pão e do vinho. Deixou-nos esse sacramento para que a gente fizesse memória de sua vida doada, partida, entregue em favor dos seus, por amor e fidelidade.  É sua vida toda que é retomada toda vez que a eucaristia é celebrada. É o mistério de sua encarnação, morte e ressurreição que nós recordamos e repetimos quando nos reunimos em torno de sua mesa. Desvincular a eucaristia da mesa, transformando o altar num lugar de sacrifício expiatório em vez de refeição, é tirá-la de seu contexto original. É tirar o foco da presença eucarística de Jesus junto de nós e colocá-la num pedaço de pão e num bocado de vinho.

Quando a gente desloca a presença do Ressuscitado da comunidade eclesial que celebra e a põe nas espécies eucarísticas, esquecendo que o que foi celebrado é um sacramento – ou seja, um mistério que não cabe em partículas apenas –,  passamos a adorar a hóstia num realismo eucarístico que já foi combatido muito tempo na Igreja. Repetimos erros antigos, retomamos práticas piedosas de outrora, passamos a viver de uma quimera e não de fé verdadeira. Isso pode ser bem perigoso e tem consequências funestas na pastoral.

Assim, comungar de joelhos não é uma prática religiosa sem consequências. Não é um ato de devoção bonitinho que mostra respeito e piedade. Não é um costume ingênuo sem maiores consequências. É um gesto conservador, que mostra uma compreensão teológica equivocada de eucaristia, uma compreensão perigosa do ministério presbiteral, cujas mãos poderosas podem consagrar, e uma compreensão eclesial bastante distorcida e perigosa.

Assim, não podemos simplesmente ver os jovens aprendendo essas práticas e ficar calados. É tarefa dos teólogos e presbíteros orientar e formar o povo. Se, numa comunidade, esse hábito começa a aparecer, melhor orientar logo toda a gente com paciência e respeito àqueles que assim o fazem, é claro! Primeiramente, a pessoa deve ser orientada em particular. Com um pouco de caridade e empatia, um diálogo pode ser iniciado. Mas não só em particular devemos falar sobre isso. Também em público isso deve ser conversado na comunidade cristã, certamente com muito mais caridade e leveza ainda, para não ofender nem magoar os corações singelos.

Aos leigos, aconselho que questionem as práticas antes de aderirem a elas. Aos presbíteros, aconselho zelo pastoral e ousadia corajosa, como disse o papa Francisco. Ficar com medo de tocar nesses assuntos e fazer de conta que a gente não está vendo, não parece a melhor opção. É preciso falar sobre essas coisas e dar formação teológica para nossa gente. Fica aí a dica!


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