“Gravei tudo em minha mente, aí está minha esperança” (Lm 3,21)

 

A arte de perder
A arte de perder não é nenhum mistério; 

Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. 
Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Depois perca mais rápido, com mais critério: 
Lugares, nomes, a escala subsequente. Da viagem não feita. 
Nada disso é sério. 
Perdi o relógio de mamãe. 
Ah! E nem quero lembrar a perda de três casas excelentes. 
A arte de perder não é nenhum mistério. 
Perdi duas cidades lindas. 
E um império que era meu, dois rios, e mais um continente. 
Tenho saudade deles. 
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. 
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério
(Elizabeth Bishop)

 

Tudo é naturalmente muito simples: as lagartas primeiramente se alimentam da casca dos ovos de que nasceram e depois das folhas onde se encontram. À medida que vão crescendo, mudam de pele algumas vezes. Dizem que o período entre duas mudanças se chama “instar”. No último instar, uma lagarta deixa de se alimentar; fixa-se e sofre a última mudança, na qual surge a pupa. É nessa fase que a lagarta se torna borboleta. Quando a metamorfose está completa, a crisálida se abre e a borboleta sai de seu interior. Entretanto, a borboleta vive pouco. Algumas semanas apenas, dizem os heteropterologistas – estudiosos da vida das borboletas e mariposas. Com exceção, é claro, das borboletas monarcas que vivem cerca de dez meses e de algumas outras espécies que vivem mais do que poucas semanas, caso não caiam na artimanha de algum predador.

Há poucos dias vi um filme doído chamado ‘Para sempre Alice’ (Still Alice- 2014) que é baseado no livro homônimo de Lisa Genova. O filme conta a história de uma mulher bem casada, com filhos, realizada profissionalmente, doutora em linguística, colecionadora de boas memórias e momentos felizes. Repentinamente essa mulher sortuda é acometida de um Alzheimer precoce que promete arruinar toda a sua carreira e vida bem-sucedida. Muito diferente dos blockbusters americanos, trata-se de um filme que valoriza os diálogos e a ausência deles, em vez dos efeitos especiais alienantes.

Talvez haja males piores do que a morte. A personagem principal, Alice Howland, chega a enunciar, em determinado instante, que preferia ter câncer ao invés de Alzheimer. É o momento da crítica mordaz do filme: não é que uma doença seja mais branda do que a outra; não é uma competição por quem sofre mais – um campeonato de perrengue, como dizemos popularmente –, mas o que se diz ali é do quanto o câncer é uma doença metáfora da morte, e que deve ser combatida sem sombra de dúvidas, pois gera muita dor e sofrimento. Porém o quanto outras doenças são tratadas à parte como se nada fossem, ou como se não tivessem significância, pois não evocam a possibilidade da morte iminente – o que, de maneira alguma, é verdade.

Perder. Todos os dias perdemos alguma coisa, algum objeto, alguém que vai embora, um pouco da vida… Mas perder a memória, a identidade, esquecer os amores, os sabores e dissabores, os outros que convivem conosco, as vitórias, os fracassos, as palavras que nos definem não é também um modo de deixar de existir, aos poucos e devagar? O filme parece jogar com essa ambiguidade: ao mesmo tempo que responde que sim, aposta na veemência, na persistência de permanecer presente, ao menos ao instante. É aí que se pode ouvir a personagem dizendo: “Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo, esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de eu vir a esquecê-lo num amanhã qualquer não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o Hoje. Mas isso não significa que o hoje não tenha importância”. O próprio filme se chama, em tradução livre: Ainda Alice, para dizer que ainda é ela que está ali. Afinal, embora o filme não deixe isso explícito, o amor das pessoas ao redor, a nomeação dos familiares, a memória dos que estão ligados a ela, ainda fazem dela, o que ela sempre fora. E não são todas as memórias que se vão.Ainda bem: a vida encontra formas de insistir…

Perder não é nenhum mistério. Vivemos perdendo. Será que é tão simples assim? Deixar partir os que amamos, para longe ou para sempre? Nosso mundo é o mundo das substituições, da dessensibilização de toda dor, e temos nos tornado insensíveis até quando perdemos pessoas. É doído perder, mas inevitavelmente muitos de nós e dos que estão conosco se vão, por muitas razões. Nós também, mais cedo ou mais tarde, partiremos da vida de outros, e isso ocorre de diversos modos. De um lado está essa realidade, mas de outra estão as perdas por pura irresponsabilidade e descuido. Por puro descaso e indiferença. Por negligência e egoísmo. Por mesquinharias e ressentimentos. Nem sempre está nas nossas mãos a possibilidade de fazer durar amizades, relacionamentos, acontecimentos. Mas, sem dúvida, toda relação é uma responsabilidade jogada entre a reciprocidade das partes envolvidas.

O passado, diga-se logo, não é um peso morto; nem as memórias são simulacros da realidade, arquivados e recuperados apenas quando nos esforçamos para lembrar. Passado e memória estão vivos, comprimindo o presente, atuando sobre ele. E estamos, à medida que recordamos ou fazemos durar, reinventando o passado, reprocessando memórias. E também somos doadores de memórias, quando ensinamos, quando educamos, quando democratizamos a cultura. Seria insuportável ter que recomeçar, desde o início, a cada dia que acordássemos, como se nada tivesse existido, ou como se nada tivéssemos feito até aqui. Ter que reaprender tudo, porque nos esquecemos de tudo. Esquecer, certas vezes, é maravilhoso, mas é imprescindível lembrar. Se é uma arte perder, recordar é a estética em sua inteireza…

Gosto da ideia de que temos de viver o hoje, também. Essa atenção ao instante é essencial em tempos de dispersão. Mas eu preciso denunciar uma vez mais esse absurdo de que só o hoje é suficiente. Sem memória, não há identidade; sem projeto, não há sentido. Até posso admitir que exista apenas o presente. Só se dissermos como Santo Agostinho: existe o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras. Nós somos o tempo se desenrolando. Se o passado não importa, o que é a saudade? Se o que fomos outrora não interessa, viveremos nos repetindo… Se o futuro é somente o incerto, o inexistente, o que é o sonho? O que é o desejo?

“Importa o hoje, pois o ontem já se foi e o amanhã ainda não existe”, dizem por aí. Tudo bem, concordo com a frase; nada de saudosismos ou idealismos inconsistentes. O amanhã pode não se descortinar para muitos de nós. Mas o agora também não existe. Que é este instante? Ops. Passou. E este agora? Ops. Passou de novo. E mais esse? Ops. Passou de novo… Ao nos concentrarmos no momento, ele já virou passado, já saltou dele o futuro, que já virou passado de novo, que já abriu o futuro mais uma vez… Melhor cavalgar o tempo que salta à galope, com nossa memória, nossa atenção e nossos desejos.

Todavia, Ainda Alice. A personagem faz pensar na fugacidade da vida e do tempo. Na sua brevidade. Na necessidade de viver com presença. É quando outra fala lhe é concedida:  “Quando eu era bem nova, na segunda série, minha professora falou que borboletas não vivem muito, algo em torno de um mês, e fiquei tão chateada. Fui para casa e contei para a mamãe. E ela disse: ‘É verdade. Mas elas têm uma linda vida’. E isso me fez pensar na vida da minha mãe, na da minha irmã. E, de certa forma, na minha vida”. Viver, mesmo para nós, muito mais complexos que simples borboletas, sempre será uma experiência breve, não importa quantos anos tivermos. Se até lá, conseguirmos encontrar a beleza, a leveza, a suavidade, a delicadeza e a liberdade das borboletas, também nós – e não só Alice- seremos… para sempre…


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