Certo dia, partilhando com uma amiga acerca da dificuldade de frequentar a comunidade eclesial especialmente por causa da péssima qualidade dos atos litúrgicos, ela me respondeu: “Foca no lúdico”. Achei graça e ela explicou que os eventos religiosos, na opinião dela, têm transmitido pouca coisa, não comunicam Deus: ou são shows dignos de deixar cantoras de axé na chinela ou são mero cumprimento de preceitos que geram um tédio assustador. Disse ela que o lúdico, o belo, a arte em geral, têm comunicado Deus melhor que as práticas religiosas em vigor. Eu que sou defensora da importância do lúdico na catequese, fiquei pensando: não deixa de ter razão a minha amiga.

As práticas religiosas de nossas paróquias estão longe de serem prazerosas. Isso é preocupante! Não é que a religião deva ser escrava do prazer, mas o prazer e a alegria são os motores da vida, e ignorá-los é insensatez. O ser humano – não o corpo somente, mas o ser humano na sua totalidade – tem necessidade de prazer e alegria. A capacidade de se alegrar, de sorrir, é um dos diferenciais do ser humano. Ela é algo constitutivo do humano; ela salva a gente porque mostra a satisfação dos desejos mais profundos. É bem verdade que a alegria, especialmente o prazer, pode se tornar perversão, como tudo na vida. Tornando-se algo perverso, o prazer escraviza, mata, destrói, tanto quem o pratica quanto as pessoas de seu entorno. Mas isso vale para tudo nessa vida, até para a fé e a religião, que, tornando-se perversão, oprimem em vez de libertar, matam em vez de salvar, geram ódio em vez de amor.

Onde foi parar o prazer de rezar e a alegria de pertencer à comunidade cristã? Onde foi parar a alegria de celebrar e o prazer de se reunir com os irmãos? Onde foi parar a alegria do evangelho que deu lugar à culpa e à austeridade religiosa? Onde foi parar a alegria de amar os irmãos e fazer com eles comunhão, mesmo na dor? Estamos precisando de atividades pastorais e comunitárias que nos recordem a alegria da fé. Como disse Jose Antonio Pagola, “é bom crer em Jesus”. É muito bom ter fé; a fé cristã é fonte de alegria.

Que fique bem claro, porém, que a fé não é fonte de comédias e palhaçadas. Plantar bananeiras nas celebrações ou se vestir de palhaço não é o mesmo que recuperar a alegria da fé. Fazer das celebrações um programa de auditório não significa que a alegria do evangelho voltou a reinar. Iludir o povo com curas e promessas ou gritar palavras de ordens que prometem libertação e cura não devolve a alegria da vida. Gera prazer momentâneo a alguns graças à ilusão que cria, mas é fugaz como poeira que o vento leva.

A alegria do evangelho se encontra na verdade, na simplicidade, na fraternidade. Por isso, ela persiste até nos momentos mais duros da vida. Não é que a gente vai ficar como diz a canção “rindo à toa”, mas a genuína alegria nem a dor leva. Ela não é fruto das circunstâncias, mas da certeza de ser amado e de não estar só.

Em vez de empenhar tanto em atividades religiosas tão austeras ou meramente repetidas pela força da tradição, ou em vez de transformar a fé cristã numa palhaçada com eventos que beiram o ridículo e pecam contra qualquer bom senso, as paróquias poderiam pensar em salvar a vida comunitária por meio da alegria singela. Primeiramente, a alegria de celebrar bem, mas também a alegria de uma boa apresentação musical, de encontros verdadeiros que geram comunhão, de uma boa seresta, de uma boa confraternização, de um filme compartilhado e discutido, de um bom encontro de formação etc. A alegria desses encontros poderia recuperar nosso prazer de pertencer. Se é triste um católico que crê e não participa da comunidade, igualmente triste é estar presente por obrigação. A fé cristã fica comprometida quando se esquece que “é bom crer em Jesus”.

Que tal investir em pastorais que resgatem a alegria da pertença? Que tal redescobrir o que gera alegria verdadeira e comunhão na comunidade? Que tal superar o rubricismo assim como a espetacularização do culto? Não é tão difícil assim: “foco no lúdico”, no seu sentido mais original, aquele jogo que dá alegria à vida e a resgata da mesmice. Mas cuidado com a palhaçada! Fica aí a dica!


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