Eu adoro uma roupa limpa e cheirosa! Detesto perfume, mas amo cheiro de limpeza. Desde pequena, minha mãe insistia que pobreza não significa sujeira e que era preciso preservar a dignidade andando sempre limpinha: unhas cortadas, cabelo aparado (por ela mesma ou por uma das minhas irmãs), dentes bem escovados (mesmo quando não tínhamos escova, havia a criatividade popular que nos ensinava a escovar os dentes com folhas de vassouras, carvão e até com os dedos), roupas bem lavadas e passadas a ferro de brasa, e o melhor de tudo, roupas de cama e banho superlimpas, claras, alvas como as vestes do Transfigurado.

A gente dormia em colchões de capim, mas de vez em quando era preciso colocá-los expostos ao sol “para matar os micróbios”, dizia minha mãe. Os travesseiros de paina também eram esterilizados ao sol e ganhavam álcool juntamente com os colchões. Era preciso limpar até as grades das camas, não deixando nenhum pelo ou sujeira para trás. Valeria bem para minha mãe, a frase da mãe de um amigo, tão pobre quanto a minha: “Deus amou a limpeza, meu filho”.

É por causa dessas raízes que ainda hoje sou obcecada com limpeza. Uma pessoa “asseadinha”, como se dizia na minha infância, é a coisa mais linda. Amo tudo limpo, arrumado, lavado, com o odor natural de todas coisas, sem perfumes para estragar o cheiro bom das coisas. Gente limpa, por exemplo, cheira bem demais. É uma delícia o frescor da pele depois de um banho! E o cheiro de uma roupa limpa saída do varal ou de uma casa depois da faxina? Tudo maravilhoso!

Infelizmente, porém, nem todos têm esta oportunidade: de viver limpo, banhado, cheiroso e com roupas devidamente higienizadas. A população de rua não tem onde se banhar e muito menos onde lavar suas tralhas (não poderíamos dizer “lavar roupas”). Seus molambos estão sempre sujos e malcheirosos; seus cobertores e colchões misturam odor de cachaça, cola, xixi, suor e abandono (porque abandono também fede); suas vestes pessoais depreendem um cheiro que causa repulsa aos bem-nascidos que não sabem o que é viver esquecido sem  amor e cuidado de ninguém.  

Há alguns anos atrás, encabeçamos uma campanha para ajudar um aluno da África (religioso) que se descobriu com um câncer na medula e que o levou a óbito em seis meses. Alguns disseram que a obrigação era da congregação. De fato, eles têm obrigação de cuidar dos seus, mas isso não nos desobriga da tarefa. Queríamos garantir que ele tivesse cuidadores e não ficasse à mercê da bondade (ou da indiferença) da instituição. Ao ser interrogada por alguém sobre o motivo da campanha, eu respondi: “Porque ele tem o direito de morrer com a ‘bunda’ limpa!”. Perdoem-me os mais pudorados, mas é exatamente isso. Temos direito à limpeza; viver limpo é um direito!

Pensando na dignidade que se esconde por trás da limpeza, o papa Francisco tomou a iniciativa de mandar construir umas lavanderias para uso da população de rua. Poderia haver proposta mais evangélica e mais genial? Esse Francisco tem umas intuições tão simples, tão práticas e tão eficazes que chegam a me assustar. Como não pensamos nisso antes? Eu gostaria de retomar a iniciativa de nosso papa e sugerir algo semelhante no Brasil. Em BH, são tantos moradores de rua, tanta gente sem o direito de lavar suas roupas, que chega a dar dó. Sim, dó mesmo! E se governo não faz nada, e – pelo andar da carruagem – vai continuar não fazendo, nós que cremos temos a obrigação de estender a mão ao que sofre.

Não é tão caro, nem tão difícil, executar um projeto nesse nível, como o do papa Francisco. A maioria das Igrejas – especialmente as mais centrais – tem áreas no entorno, o que já é bom começo. Em vez de a gente fazer lindos jardins (coisa boa também, mas menos urgente), que tal construir lavanderias para a população de rua? Os pobres têm direito ao asseio! Como dizem muitos por aí, “nóis é pobre mais é limpinho”. Fica aí a dica!


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