Não é raro encontrar pelas ruas veículos com os dizeres “Foi Deus quem me deu’ ou “Presente de Deus”. Nas redes sociais, não faltam postagens do tipo “Meu nome é sucesso; meu segredo é Deus”. Nos cultos – inclusive em alguns católicos, infelizmente! – muitos pastores gastam seu discurso com a teologia da retribuição, pregando um Deus que premia os bons e pune os maus. As equipes de pastoral do dízimo quase sempre se firmam sobre a tal promessa de Malaquias, anunciando um Deus que dá bênçãos aos bons e livra de pragas aqueles que forem fiéis na entrega do dízimo. O Deus poderoso e forte tem sido o predileto dos pregadores e, em nome dele, alguns prometem curas, milagres e prodígios. Os cristãos dessa linha teológica são todos vencedores, porque apesar de “não serem donos do mundo, são filhos do dono”, como aparece escrito em muitos para-choques de caminhão. Nenhum deles parece conhecer a doença, a dor, a perda, o fracasso, o sofrimento. Para falar a verdade, como disse Fernando Pessoa, todos são vencedores: “Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…”. Ou eles vivem numa bolha de vidro ou são filhos diletos de um deus cruel que abandonando o resto de sua prole, tão ocupado ele vive em paparicar essa gente! Sofrimento e dor se tornaram quinhão dos não-crentes, herança maldita do pecado que só alguns experimentam!

Não sei onde foi que esses tais cristãos tiraram essa teologia, mas estou certa que ela tem pouco a ver com o Deus de Jesus Cristo, aquele cujo final foi injustiça, calúnia, fracasso, dor, sofrimento e morte ignominiosa na cruz. Apesar de os Evangelhos insistirem no relato da ressurreição, seja com o sepulcro vazio (como Marcos) ou com as aparições (como Lucas, Mateus e João), os evangelistas são unânimes em mostrar que Jesus teve um final trágico e não foi poupado do sofrimento que é próprio da vida. Então, por que essa teologia triunfalista, que proclama sucessos em nome de Deus e vê todo fracasso como falta de fé? Alguns presbíteros, vendo o avanço pastoral de seus trabalhos – coisa mais que normal e feliz! – têm propalado essa teologia do sucesso, como se todo trabalho dos crentes só pudesse resultar em felicidade e glória. A frase usada por alguns líderes religiosos “meu nome é sucesso; meu segredo é Deus” quase nos obriga a escrever debaixo das postagens – tão comuns nas redes sociais! –  “sou ministro da Igreja Universal do Reino de Deus”.

Por que será que é tão difícil lidar com o fracasso? Por que será que a fé cristã se tornou instrumento de alienação que faz a gente fugir da vida em vez de enfrentá-la corajosamente? Por que alguns entendem que por serem cristãos não podem sofrer como todas as pessoas? Por que se veem como um grupo de privilegiados de pessoas que não se misturam com os demais? Por que alguns reivindicam para si um apreço especial de Deus, como se fossem os “filhinhos do papai”? Parece que a fé cristã triunfalista da teologia da retribuição achou campo fértil no mundo capitalista e cruel de hoje. É mais fácil a gente viver de ilusões se consolando que Deus é garantia de sucesso e isenção de dor, que enfrentar a batalha da vida, matando “sete leões por dia para conquistar uma agulha”.

Que o povo sem muita instrução religiosa e quase nenhuma teologia faça essa leitura, isso não me escandaliza. Os meios de comunicação insistem nessa vertente e inclusive as redes católicas não se cansam de veicular essa mensagem. Mas que os pastores de nossa gente façam tal coisa, isso é simplesmente lamentável e um equívoco teológico sem par! Já passou da hora de nossos bispos reagirem a essa teologia que muitos presbíteros estão disseminando.

Aos católicos (pois é na instituição Católica Romana que congrego), aconselho a não acreditem nessa falácia! É só olhar para a vida tal como ela é para saber que o sucesso não é consequência necessária da fé. Há, como diz o livro do Eclesiastes, muitos justos sofrendo e muitos ímpios se dando bem na vida. Aos presbíteros, suplico que não enganem nossa gente com promessas ilusórias e que não imponham à nossa gente mais essa dor: a de – passando pelo sofrimento e pela morte – entenderem que não têm fé e que foram abandonados por Deus. Isso é de uma crueldade sem par. Fica aí a dica!


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