Quando criticados sobre certas posturas pastorais, alguns presbíteros não hesitam em encher a boca para dizer: “…mas o povo gosta!”. Justificando-se a partir do gosto popular, trabalham mais ou menos como políticos populistas, sempre no interesse de agregar mais gente e captar a benevolência das massas, como se número elevado de pessoas fosse critério da ação do Espírito. E a ladainha de justificativas segue: o povo gosta, o povo se ajunta quando fazemos assim, a igreja fica lotada etc.

Não sei de onde vem esse modo de justificar a pastoral, mas suspeito que ela não coadune com o evangelho de Jesus Cristo. Apesar de os Evangelhos, sempre hiperbólicos, mostrarem Jesus acompanhado de multidões, o Homem de Nazaré não seguiu gostos populares: suas palavras nem sempre agradaram, sua pregação nem sempre comoveu os interlocutores, seus ensinamentos nem sempre arrecadaram a benevolência dos ouvintes, sua ação libertadora nem sempre foi bem acolhida. Não faltam nos escritos do NT exemplos que mostrem isso. Tomemos apenas dois.  No Evangelho de João, quando Jesus fala abertamente sobre “comer sua carne e beber seu sangue”, ou seja, assumir a sua existência e nutrir-se do que movia sua vida, seu discurso escandalizou a muitos. Em vez de agregar multidões, Jesus espalhou. Alguns de seus seguidores até desistiram de continuar o caminho com o Mestre depois de uma exigência tão radical. Jesus, vendo que muitos se foram, perguntou aos discípulos se também eles não queriam deixá-lo. Pedro – sempre intempestivo – respondeu: “A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna (Jo 6,68). As palavras de Jesus não caíram no gosto popular e ele não fez muito sucesso. Outro exemplo: Marcos, querendo mostrar que o ser humano é lugar da ação divina e não opressão e exploração, relata o curioso caso dos espíritos que saíram de um homem e foram parar nos porcos (tão impuros quanto eles!). Ao ver o prejuízo que Jesus deu pois os porcos foram precipitados no abismo, o povo ficou descontente e pediu a Jesus para sair de Geraza. Bastam esses dois exemplos para mostrar que o discurso de Jesus incomodava; sua prática pastoral não agradava sempre. Tanto é que não demorou muito para o Nazareno ir parar numa cruz, denunciado por companheiros da sua religião. O mesmo aconteceu com os discípulos Paulo, Pedro, Estevão e tantos outros que seguiram os caminhos do Crucificado. Tendo sido fiéis aos ensinamentos de Jesus, desagradaram multidões, foram presos, perseguidos e tiverem o mesmo fim do Mestre.

O contrário, porém, pode ser verdade. Quanto mais populista o discurso, quanto mais mágico-pentecostal a prática pastoral, mais o trabalho pode cair no gosto popular e agradar multidões imensas. Em Atos dos Apóstolos, Lucas insiste em mostrar que a pitonisa faz sucesso e Simão, o mago, tem multidões em torno dele.

Assim, o gosto popular não é critério pastoral seguramente evangélico, apesar de muitos presbíteros insistirem nessa argumentação.  Não basta o povo gostar para a prática pastoral ficar legitimada. Um povo com formação cristã duvidosa costuma gostar de coisas abomináveis, e o gosto do povo costuma justificar vícios pastorais que há muito já deveriam ter sido superados. Um círculo vicioso se forma: o povo não é bem formado, a falta de formação cria costumes que caem no gosto do povo, o gosto do povo torna-se critério pastoral… Ora, se o povo está gostando, para que outra formação, para que mexer, para que inovar? E assim vai…  Na preguiça de soar a camisa pelo reino, muitos seguem dizendo “fazemos assim porque o povo gosta”.

Aos que continuam com o mesmo e velho refrão “o povo gosta’, lembramos duas coisas: o povo gosta porque não conhece coisa melhor; o gosto do povo não é critério teológico. Fica aí a dica!


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