“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo,
tome a sua cruz e siga-me.” (Mc 8,34)

“O discipulado é de graça,
mas lhe custará a sua vida”
(Dietrich Bonhoeffer)

Na atualidade, palavras como seguimento, discipulado, caminhar com Jesus tornaram-se sinônimo de bem-estar, prosperidade, milagre a bel-prazer. Os testemunhos são assombrosos: “não tinha nada, estava endividado; depois que aceitei Jesus, hoje tenho um carro do ano, casa nova (mansões!), vida farta e luxuosa”. Às vezes me pergunto: afinal, trata-se de pessoas que seguem Jesus ou estavam caminhando errantes e encontraram uma lâmpada mágica? Só pode! Mas não creio que um gênio (acaso existisse!) fosse capaz de fazer todas as nossas vontades, sujeitando-se a ser refém de nosso egoísmo e de nossas chantagens emocionais.

O Evangelho de Marcos é tão provocador quanto realista: nada de Jesus glorioso e triunfalista à mercê de nossas meninices e desmandos, mas um Jesus que nos convida a encarar a vida como ela é. Melhor, como Ele mesmo a tomou para si e a viveu, humana e não magicamente: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”.

A frase do teólogo Bonhoeffernos ajuda a compreendermos o Jesus às avessas do evangelista Marcos: “O discipulado é de graça, mas lhe custará a sua vida”. Isto é, o discipulado é de graça quando vivido na graça e por amor. Ele nos custa o abandono de uma vida medíocre, cômoda: tentação para todo cristão. Por isso, a partícula “se alguém” é condicionante e impessoal. Ela indica opção e livre escolha daquele que quer se colocar no caminho para seguir o Mestre; logo, não é obrigatória. É a decisão livre e amorosa daquele que é “de fora”, mas quer tornar-se “de dentro”: ser um com Jesus.

No discipulado, o discípulo segue o mestre Jesus, porque discipulado implica aprendizado, palmilhar sobre os mesmos passos. Infelizmente, muitos púlpitos e seus pregadores parecem ignorar completamente essa condição de ser discípulo. É uma mania de querer estar à frente do mestre, ditar as regras, seguir seus GPS pessoais bem mais que os ensinamentos de Jesus. Mas, para Marcos, a condição para o discipulado verdadeiro é outra…

“Renuncia-se a si mesmo…”. Para renunciar algo é preciso tê-lo antes; assumir-se quem se é de fato para entregar-se a Jesus. É preciso renunciar o próprio projeto para aderir outro. Logo, é o esvaziamento de si e não o inflar-se de si mesmo. Os discípulos de Jesus quebraram muito a cabeça para compreender que ele era o Messias inesperado, o servo sofredor e não o Messias glorioso. Porém, hoje, com muita facilidade renega-se a Jesus e sua mensagem libertadora, em prol de um exibicionismo que chega a ser vergonhoso.

“…tomar a sua cruz…”. É assumir a própria vida, ter as suas rédeas nas mãos. Assumir o limite do corpo, do ser pessoa, do estar no mundo. A cruz é a história pessoal de cada um. O Evangelho de Marcos, por ser um relato pós-pascal, ressignifica o sentido da cruz: ela indica a própria existência, já que não existe vida sem dor, sem suas cruzes.Portanto, devemos nos livrar da tentação de tornar a cruz (vida) do outro mais pesada, para aliviarmos o peso da nossa. Lembremos: o discipulado custará a nossa vida!

“…siga-me”. O destino do discípulo é o mesmo destino do mestre, logo, o discipulado não é o lugar para o discípulo glorioso ou acomodado; não é o lugar para fazer fama, construir castelos e se regar de benesses. Corremos o risco de negar nossos valores em troca do efêmero, da ganância, do vil poder. Mas o evangelista é claro: ouça a voz do mestre, siga-o: coloque-se no caminho, mas atrás do mestre.

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. É o legado do servo sofredor: ele efetuou a Kénosis e viveu a radicalidade de sua mensagem, a ponto de lhe custar a vida. Agora, cabe a cada um de nós escolher caminhar com o Messias inesperado, às avessas, que por amor dá a sua vida; ou podemos escolher os “Messias gloriosos” que prometem curas, riquezas e vida cômoda em troca de alienar e tirar nossa vida e liberdade: pesar a nossa cruz para tornar a deles mais leve. É sempre um risco. Melhor ficar alerta!


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