As missas de cura ou de libertação se tornaram práticas constantes na Igreja. Tem presbítero que se especializou em presidir essas celebrações e faz sucesso no meio do povo. Coitada de nossa gente! Anda mesmo desesperada em busca de um pouco de água para matar a sua sede! Falou que tem ação de Deus em algum canto, lá vai uma procissão de católicos em romaria se agregar em trono desses presbíteros carismáticos (não da RCC, mas com carismas para pregar, cantar, pular e fazer o povo esquecer a dor da vida). Eu não tiro a razão do povo que vai atrás desses momentos fortes de emoção e fé. Não porque nesses eventos tenham cura mesmo ou porque a libertação aconteça por lá, mas porque um pouco de alegria não faz mal a ninguém e um pouco de ilusão faz parte da vida. Além disso, quase sempre essas grandes aglutinações religiosas têm músicas belas, um presbítero com a arte da oratória e um ambiente de afeto que contagia os participantes. Diante de nossas celebrações, sempre tão austeras e rituais, um pouco de animação e espontaneidade acaba atraindo muita gente.

Muito tem sido dito sobre esses presbíteros: que eles fazem carreira solo, que não vivem em comunhão com a Diocese, que adoram panos e fumaças, que são exibicionistas, que transformaram a missa em um programa de auditório etc. Mas, de todos os riscos dessas missas de cura, o que mais me preocupa é a manipulação das consciências, é prometer cura e libertação “em nome de Jesus, amém!”. Isso parece muito perigoso. Tem presbítero que até diz – em nome de um dom extraordinário de ciência e revelação – que vê coisas, advinha coisas, ou melhor, tem contato direto com Deus, ouve-o falar e recebe missões de realizar prodígios em seu nome. Falam mais ou menos assim: “O Senhor está me revelando que alguém está sendo curado de depressão; é uma pessoa muito boa, mas está passando por uma crise muito grande no seu casamento etc”. Ora, metade das Donas Marias que estão na celebração vivem exatamente esse drama ou algo parecido. E essa palavra lhes cai como uma luva. Ela tem a força de um oráculo. Cada palavra que o presidente da celebração diz está investida de um poder sagrado; tudo ali fala de Deus e o credencia a ser crível. Suas vestes o distinguem do povo; sua cadeira é diferente das outras; ele está no presbitério e o povo se encontra na nave do templo; ela age in persona christi, dizem alguns; ele é o representante de Deus na terra, pensa a gente simples. Como não acreditar no que ele diz? Como não precisar da sua mediação? Aí nossa gente acorre a eles, os presbíteros carismáticos, como abelhas ao mel. E não demora começa o culto à sua pessoa.

Como se não bastasse a ilusão de uma promessa de cura e o perigo de subtrair as pessoas do seu compromisso com a história, de arrancar-lhes de sua finitude que precisa ser enfrentada, esse tipo de missa não favorece uma relação saudável entre pastor e ovelhas. Tendo ganhado o apreço das ovelhinhas, o pastor pode lhes arrancar o couro. E há quem arranque! Muitos não se envergonham de extorquir as ricas madames pedindo roupas caras, aceitando fazer às suas custas viagens para o exterior, recebendo presentes em todas as ocasiões. Uma relação doentia de dependência se estabelece.

Para quem tem algum traço de narcisismo, é um prato cheio! A bajulação dos “curados” lhes afaga o ego e lhes diz: “Você é o máximo!”. Enquanto isso, as pobres senhoras continuam sem serem curadas. E só aumenta a sua escravidão. À doença da qual querem se ver livres ainda se soma a dependência afetiva do presbítero que elas idolatram. É uma verdadeira imbecilização do povo; um emburrecimento dos leigos que causa preocupação em quem tem um mínimo de juízo. O que fazer, meu Deus se em quase toda diocese tem um sujeito desses cultivando essas práticas extravagantes?

Bom, proibir missas assim não resolve; sempre tem um presbítero disposto a contrariar a regra e a fazer o que acha melhor. Dizer que toda missa é de cura, que não é o padre quem cura mas Jesus, que a eucaristia dessa missa é a mesma das outras etc. não resolve. Esse tipo de racionalidade não convence nossos contemporâneos, filhos do “sinto, logo existo”. Nossa gente quer sentir algo, quer se emocionar, quer ter o coração tocado. Até aí nada demais! Direito do povo, apesar de emoção e sentimentos não significarem experiência cristã de Deus (mas também não lhe opõem). A única solução possível parece ser oferecer algo melhor ao povo: uma espiritualidade que ajude as pessoas a suportarem as vicissitudes da vida e as fragilidades do corpo (todo mundo adoece; todo mundo morre…); uma teologia que lhes sirva de sustento e lhes abasteça numa relação amorosa com Deus; uma prática pastoral – especialmente litúrgica – que lhes conforte o coração e lhes dirija uma palavra que faz sentido, que faz viver! Dessa forma, não precisarão desses eventos extraordinários pois a comunidade-igreja será para elas o oásis que tanto procuram. Fica aí a dica!


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