Vai e volta nossa gente ressuscita na Igreja antigas práticas de piedade e faz delas o carro-chefe da pastoral ou da espiritualidade paroquial. Tem de tudo, desde adoração ao Santíssimo, novenas diversas (até de São Miguel), cerco de Jericó, missas de cura e libertação, reza das mil Ave-Marias etc. São expressões da religiosidade do povo, sinais de sua fé, de sua busca de Deus. Nosso povo anda desejoso de uma força para viver, de algo que lhe arrebate da mesmice da vida, e o Transcendente tem essa capacidade de ressignificar tudo, tornando a vida mais leve e o fardo existencial menos pesado. Certamente não temos nada contra a religiosidade popular, nem contra as expressões religiosas de nossa gente, mas ando assustada de ver como essas práticas piedosas crescem e ganham vulto, a ponto de se tornarem o alicerce de algumas paróquias. É o caso, por exemplo, do famoso terço dos homens.

A oração do terço (a terça parte do rosário) tornou-se uma tradição na Igreja e essa piedade remonta ao século VIII. Na Idade Média, o rosário era o consolo dos analfabetos, que não conseguindo rezar a liturgia das horas com os 150 salmos, como os monges e os religiosos de vida consagrada, rezavam as 150 Ave-Marias (depois do papa João Paulo II, o rosário tem 200 Ave-Marias). Não era preciso saber ler, nem ter grandes técnicas de oração. Era só recitar as preces decoradas, com pequenas introduções de meditações sobre os mistérios da vida de Cristo e de Maria. Rapidamente essa prática se espalhou, especialmente depois de São Domingos de Gusmão que diz ter recebido o rosário das mãos da virgem como arma para combater os hereges. O terço tornou-se uma espécie de consolo espiritual para os aflitos, calmante para os insones, arma contra os demônios e oração apropriada para a hora da morte. Durante muito tempo, as famílias católicas rezaram o terço no final da tarde, especialmente na hora chamada de ângelus. O costume se enraizou tanto que ainda hoje, mesmo com toda secularização da sociedade, muitas rádios ainda tocam a Ave-Maria ou rezam o terço as 18h.

Atualmente, experimentamos em nossas paróquias uma outra modalidade do terço, uma versão mais pós-moderna, com cantos e preces, que agrega os homens católicos e reagrupa aqueles que estavam perdidos, feito ovelhas sem pastor. Muitos homens voltaram a agregar a comunidade-Igreja depois do contato com essa modalidade de oração, a ponto de o “terço dos homens” ganhar estatuto de movimento ou de pastoral em algumas paróquias. Não poucos párocos têm acreditado nesse caminho e investido energias no acompanhamento desses grupos. Em janeiro de 2017, mais de 70 mil homens se reuniram em Aparecida do Norte no encontro anual, mostrando a popularidade que tais grupos alcançaram.

Confesso que isso me assusta. Nada contra o terço! Nada contra os homens e seu retorno à comunidade eclesial! Mas apavora-me pensar que precisamos de uma prática de oração medieval para agregar os homens, que vivem distantes da vida da Igreja, numa espécie de “clube do Bolinha”, no qual as mulheres não podem entrar. Ameaçados pela presença feminina, pelo protagonismo feminino, nas pastorais e movimentos da Igreja, os homens precisaram excluir as mulheres para se sentirem aceitos, para acharem de volta seu caminho para as paróquias. É o fim de todo exercício de convivialidade e de aceitação do diferente. Voltamos às praticas medievais não só no modo mecânico de rezar, sem precisar de um exercício cognitivo ou mistagógico, mas voltamos também aos tempos em que homens e mulheres tinham lugares separados no templo. Quando criança, na minha terra, era assim: homens de um lado e mulheres de outro. E não faltavam olhares desconfiados quando meu pai se sentava com minha mãe cuidando das crianças sem se dar ao luxo de ficar tranquilo no banco dos homens.

Que o povo busque essas práticas, como o terço dos homens e a elas se afeiçoe, eu não estranho. Coitada de nossa gente! Não temos tido muitas ofertas pastorais, especialmente de espiritualidade e mística, que nos sustentem no caminho da fé. Que as mulheres fiquem felizes e até se deem por satisfeitas de verem seus maridos indo para a igreja rezar, quando passaram anos a fio longe das comunidades eclesiais, também é compreensível. Melhor isso que ficar na esquina bebendo nos botecos. Agora, que um padre, depois de pelo menos sete anos de estudo (3 de filosofia e 4 de teologia), só consiga oferecer isso aos fiéis e se dê por satisfeito de ver suas igrejas cheias de homens, isso já é um absurdo. O crescimento do terço dos homens me diz que nossa pastoral está falida, que não conseguimos nos comunicar com os homens e as mulheres de hoje e que a função de animador do ministro ordenado precisa ser revista.

Àqueles que estão no terço dos homens, desejo que esse “movimento ou pastoral” lhe abras novas portas na comunidade eclesial, que essa espiritualidade mariana não lhes baste, que tenham sede de mais! Às mulheres que se dão por felizes de ver seus maridos no terço dos homens, desejo os pêsames! É a morte de toda parceria e cumplicidade conjugal! Aos presbíteros que andam felizes com os templos cheios desses católicos, recomendo caridade com os grupos já existentes e ousadia pastoral para descobrir novos caminhos pastorais. Agregar o povo e lhes oferecer uma palavra que faz viver não é tão difícil assim. Basta deixar o evangelho de Jesus extravasar desde dentro e saber perceber o que fala ao coração do povo! Fica aí a dica!


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