“O que é o homem para que dele te recordes?”(Sl 8,5)

“O bicho, meu Deus, era um homem”
(Manuel Bandeira)

Encontramos no Salmo 8 uma belíssima passagem que traz uma pergunta que todos nós já fizemos em nosso interior um dia: “o que é o homem para que dele te recordes?”

Talvez a beleza desse versículo tenha se perdido um pouco na tradução, mas permanece escancarada para os leitores do hebraico bíblico, pois o salmista não questiona o que é toda a humanidade diante de Deus, mas o que é cada ser humano, o que é cada um de nós, para que Deus de nós se recorde e nos trate com tanto carinho. Ainda no contexto do salmo, vemos outras obras da criação, pois também o ser humano foi criado: estrelas, céu, lua, animais terrestres, aquáticos e aqueles que voam e o bicho homem… tudo é criação! Mas somente do homem Deus se ocupa. O bicho homem é o centro das atenções de Deus, alvo certo de seu amor.

Por que, Senhor, nos destes a vida? Por que criastes tudo? Por que nos libertastes? Por que cuidas de cada um de nós com amor sem medidas?

Chiara Corbella Petrillo dizia: “nós nascemos e nunca mais morreremos”. Nunca mais morreremos porque nem a morte é capaz de nos separar do amor de Deus. Com essa afirmação, a pergunta do salmista ganha mais intensidade: o que é cada um de nós, para que nos trates assim? O que fizemos para receber tamanho dom de tuas mãos?

Tamanha é a gratuidade de Deus, que ela nos parece sem sentido. Sentimo-nos incapazes de retribuir na mesma intensidade esse amor. Somos capazes de amar a Deus ou aos irmãos – é bem verdade – mas nosso amor ainda se revela tão interesseiro, tão pequeno diante da grandeza do amor divino, que ele se nos manifesta como mistério. Só Deus poderia amar assim, sem interesse, sem saber se seu investimento terá retorno. Deus ama e pronto!

Se é assim, por que ainda vivemos nos rastejando, sentimo-nos diminuídos, como um rato no lixo? Manuel Bandeira retratou a miséria humana como poucos quando escreveu o poema O Bicho.

Vi ontem um bicho 
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Diante do amor desmesurado de Deus, ficamos intrigados com a condição de des-amor, des-afeto, des-igualdade em que ainda vivemos todos nós, mas especialmente alguns irmãos menos favorecidos da sociedade. A televisão, os jornais e a internet não se cansam de noticiar. São situações tão degradantes que nos fazem blasfemar! Nos fazem repensar a misericórdia divina na qual cremos e que nos sustenta na caminhada.

Mas, para quem já fez a experiência da gratuidade do amor de Deus, tudo remete de novo ao amor de Deus, até a dureza e a miséria da vida. Elas nos revelam sua compaixão e sua misericórdias infinitas. Revelam-nos que com mesmo amor devemos nos amar, com mesma solicitude devemos servir os mais enfraquecidos, com mesma caridade devemos nos aproximar de cada sofredor!

Certa vez, vendo uma reportagem sobre um incêndio, fiquei a pensar na coragem intrépida dos bombeiros. Um bombeiro, diante de um prédio em chamas, lança-se nele para salvar a vida de quem nele está. Não lhe importa se é uma figura proeminente na cidade ou um viciado em drogas, um homem casado ou um solteiro, se hetero ou homossexual, se pobre ou rico… Para ele, não importa nada a não ser que aquela pessoa encontra-se necessitada de socorro. O bombeiro lança-se para salvar vidas, mesmo arriscando a sua. Ele salva a pessoa, não o adjetivo que costuma qualifica-lo. Deus age de forma semelhante: ele se lança na história da humana, na história de cada um de nós, para nos amar, para nos salvar, sem perguntar se somos merecedores de sua graça. E nos convida ao mesmo amor, à mesma doação!

Mas por que tudo isso? Por que se lança Deus, se encarna, na nossa história tão limitada e sem sentido? Pelo valor que o bicho homem tem? Sim, pelo valor que o homem tem – não porque o tenha adquirido para si mesmo por algum mérito – mas porque Deus se ocupa dele, porque o ama. O que é o homem? É essa criatura da qual o próprio Deus se ocupa. Mistério de amor: estranho e maravilhoso.


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