“Nossos dias na terra não passam de uma sombra” (Jó 8,9)

 “Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara”
(Lenine)

 

Viver correndo virou moda. Agendas cheias virou sinônimo de proatividade, de vida séria. Uma pessoa compromissada, requisitada, certamente com problemas para dizer ‘não’, é vista como alguém disposta, encorajada, cheia de motivação e entusiasmo.

Não é preciso “chover no molhado”: sabemos que as distâncias se encurtaram, e o tempo foi estreitado. Como dizemos popularmente:o mundo gira, a Sapucaí é grande e o tempo urge, a vida é curta. Quanto sufoco para girar a roda do lucro com o trabalho desmesurado! Quanta correria para fazer tudo! Desde os pêsames aos parabéns; é melhor não demorar… Demoras incomodam; tem que ser no nosso tempo, de uma vez, e que seja agora. Imediatismos, birras, pensamentos mágicos se entremeiam para explicar nossa fobia de perder tempo. “Vida intensa!”, pedem os jovens. Os amantes combinam um encontro às pressas… Quanta precocidade para as palavras, para a confiança, para o amor!… Até os ciclos vitais foram acelerados; os porcos que o digam… A infância está desaparecendo, sendo engolida pelo universo do imediato. Dá para parar um pouquinho? Precisei enfiar tudo num parágrafo, só para não perder você, caro leitor…

Sim, só para ler essas linhas sua atenção já viajou a quantos lugares?… Eu juro que não vou escrever muito. Sim, porque só conseguimos ler os poucos caracteres do WhatsApp. Vídeos com mais de cinco minutos do YouTube são insuportáveis, longos demais. A propaganda tem dado um duro danado para conseguir prender a atenção das pessoas…

O que queremos evitar com essa pressa toda, mantendo-nos no burburinho ou na turbulência de todos os barulhos? Se isso tem sentido para nós, voilá, mas na maior parte das vezes, a correria nos impede justamente esta pergunta: “O que ‘venho sendo’ é para atender aos outros, ao que os outros esperam e querem, ou é realmente o que sou, o que acredito, o que me confere sentido?”. A resposta não pode ser rápida. Por mais que queiramos nos livrar das angústias – e fazemos isso com nossos remedinhos, tão logo elas ameacem surgir –, elas podem nos arrancar da turba civilizada da sociedade e nos jogar de novo à pergunta que somos…

Paragens são tão benditas: o oásis no meio do deserto. O festim com os amigos, a bebida no fim da tarde em volta de uma mesa, o olhar demorado dos enamorados, o silêncio cálido do abraço, as férias, a preguicinha dos dias frios, o livro que extenua o peso do mundo, a família entre afagos… Pena que esses oásis têm se tornado um borrão mal discernido, num quadro distante. Miragens… Há quem possa objetar, entretanto: “Eu tenho tudo isso”. Mas só para voltar à pressa depois? Bastará isto: recarregar as energias para depois gastá-las ainda mais velozmente? Até bateria do celular vicia desse jeito…

Milan Kundera escreveu um livro chamado A Lentidão. Com uma trama menos importante do que a reflexão que promove, o autor convida a pensar sobre o tempo, sobre a nossa forma de estarmos presentes ao mundo, às pessoas. Estamos correndo para quê, afinal? Para chegarmos mais cedo aos braços da morte? Nas palavras de Kundera, nosso mundo está obcecado pelo esquecimento e é por isso que se entrega ao demônio da velocidade. “Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. (…) o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.” (p. 30-31). Estamos esquecendo muita coisa com nossa pressa desmesurada.

Também uma poetisa contemporânea, estudiosa de Nietzsche, Viviane Mosé, brinca com essa ideia de tempo devorador. Já sabia o mito antigo: o deus Chronos come seus filhos. O tempo é mesmo devorador. Permitam-me investir tempo em poesia e numa poesia meio atrevida. Não se escandalizem os mais recatados. É só poesia; pura metáfora! E de uma beleza sem par!

Quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?
 
 O tempo andou riscando meu rosto
 com uma navalha fina.
 
 Sem raiva nem rancor,
 o tempo riscou meu rosto
 com calma.
 
 (Eu parei de lutar contra o tempo.
 Ando exercendo instantes.
 Acho que ganhei presença)
 
 Acho que a vida anda passando a mão em mim.
 A vida anda passando a mão em mim.
 Acho que a vida anda passando.
 A vida anda passando.
 Acho que a vida anda.
 
 A vida anda em mim.
 Acho que há vida em mim.
 A vida em mim anda passando.
 Acho que a vida anda passando a mão em mim
 
 e por falar em sexo quem anda me comendo
 é o tempo.
 Na verdade faz tempo mas eu escondia,
 porque ele me pegava à força e por trás
 
 Um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo,
 se você tem que me comer
 que seja com o meu consentimento
 e me olhando nos olhos.
 
 Acho que ganhei o tempo.
 De lá pra cá ele tem sido bom comigo.
 Dizem que ando até remoçando

À propósito, hoje aprendi uma lição constrangedora. Foi dia de agenda cheia. Pegar o carro, ir ali e acolá, voltar, fazer isso e aquilo, tudo com o tempo espremido. De todos os lugares saía atrasado para chegar em todos os lugares atrasados, por causa da infinidade de compromissos enfiados entre as poucas horas de meu dia. À noitinha, antes de ir para a última reunião, sem banho, faltavam dez minutos para o horário da dita cuja e já começaram a me ligar. Eu estava faminto. Abri a geladeira e lá estava um peixe suculento, ao molho. Salivei como um cachorrinho… “Dá tempo de comer”, pensei. Dá tempo… Esquentei o peixe, o arroz. Mas quanto espinho tinha aquela criatura! Não dava para comer com calma, não dava para tirar os espinhos delicadamente! Tinha que comer às pressas! Devo ter engolido uns três… Estou rezando para não ter maiores danos… Deixei boa parte no prato. Resultado: estava na reunião, mas não estava, do mesmo modo que comi o peixe, sem saboreá-lo. Por isso, fica a dica: às pressas, não tenha dúvidas, não coma o peixe!


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