Desde que me entendo por gente, lido com o constrangimento daqueles sacos de dinheiro que circulam na hora do ofertório. Quando menina, achava graça quando meu pai tinha uma moeda para eu jogar lá dentro. É bem verdade que, na maioria das vezes, eu achava que precisávamos mais tirar um dinheiro de lá do que doar o pouco que tínhamos, mas, na minha meninice, a hora do dinheiro na sacola era a mais divertida daquele ritual. Durante toda a celebração, meu irmão mais velho e eu perguntávamos se estava chegando a hora de pôr o dinheiro no saco. Era um saco daqueles que mais parecem um grande coador de café, com um cabo comprido para abranger toda a largura do banco onde o povo se senta. Eu nunca entendi por que se recolhia dinheiro na hora da missa. Meu pobre e analfabeto pai disse que era dinheiro para santo Antônio, o padroeiro. Nunca soube o que o santo faria com ele, pois ele não se movia do nicho onde havia sido colocado, a não ser no dia 13 de junho quando passeava em procissão pelas ruas. Mas era assim. Perguntar mais que isso era atrevimento; responder mais do que isso era impossível.  

Passaram-se quase cinquenta anos. Já não sou mais menina; meus pais já se despediram desse mundo e devem rir de mim e de minhas lembranças. Meus cabelos ficaram brancos (começaram a chegar com 21, idade do juízo) e a cabeça está literalmente em neve. A vida passou, certamente bem mais que a sua metade, e a sacola continua circulando nos corredores dos templos. O recolhimento do dinheiro permanece e, com ele, meu constrangimento. Ainda hoje sinto uma estranheza ao ver aquele macrocoador de café passando pelos bancos da igreja na hora da missa. O mal-estar vem de muitas questões. A primeira delas é pela feiura da sacola. Não tem algo menos feio que isso, meu Deus? Que tal uma cestinha, por exemplo? Aquele saco de pano vermelho, de flanela, igualzinho um coador dos grandes mancebos da roça, é simplesmente horroroso. Deixando o lado estético esquecido, sobra outro problema: a mendicância. Implora-se por uma moeda quando se passa com aquela sacola por onde a gente está sentado rezando. É simplesmente humilhante ver a instituição paroquial mendigar uma esmolinha, por favor, para pagar suas contas – ou alguns luxos de poucos! Todo dom deveria ser ofertado e não implorado. Em terceiro lugar, soa totalmente sem espaço no ofertório o gesto de buscar algo onde a pessoa está. Não deveria ser o contrário? Cada qual não deveria se levantar de seu comodismo e fazer sua oferta material, além do coração em oração unido a Jesus que se oferece ao Pai? Uma moeda, um dinheiro qualquer, roupas, alimentos, sei lá! Qualquer dom oferendado deveria ser levado ao altar e não buscado nos bancos das igrejas, causando o constrangimento da mendicância para a instituição e o constrangimento de ter que ofertar para o leigo que vê a sacola passar. Não seria mais oportuno o uso de uma cestinha bonitinha lá na frente, onde cada um põe o que quer e se quer? Em quarto lugar, ainda sobra outro mal-estar, mais complicado que os três primeiros. Realmente há espaço na liturgia para essa oferenda de dinheiro? Sempre achei estranho que, em muitas comunidades eclesiais, em nome da higiene e da prevenção contra a propagação de vírus como H1N1, alguns párocos tenham restringido o Pai-Nosso de mãos dadas, cortado o Abraço da paz ou implantado o costume da comunhão na boca, mas nunca tenham retirado da missa o recolhimento do dinheiro. Não falo isso em nome da higiene, mesmo concordando que não há nada mais cheio de micróbios que dinheiro, pois corre de mão em mão. Falo em nome da liturgia e da teologia. Uma comunidade de fé que realmente entendeu o que é a partilha e a fraternidade não precisa recolher dinheiro na hora do ofertório. Fica aí a dica!


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