“Continuavam olhando para o céu,
enquanto Jesus subia” (At 1,10)

“E tô perdido, sem pai nem mãe,
bem na porta da sua casa…
Só um pouquinho de proteção,
ao maior abandonado”
(Cazuza)

 A sensação de estar perdido, sem rumo certo, à deriva da vida, não é estranha ao homem contemporâneo. Diante de tantas opções, já não sabemos que caminho seguir, que direção tomar… Não sabemos nem mesmo o que queremos ser e se conseguimos ser o que desejamos.

A sociedade pós-moderna com sua multirreferencialidade deu-nos asas, mas tirou o chão. Para quem não ensaiou os voos, a queda é certa. As referências, antes dadas por instituições externas, não nos são oferecidas mais. É que as grandes instituições com suas explicações totalizantes caíram no descrédito e as pequenas narrativas ganharam espaço. Mas são tantas e tão diferentes, que já nem sabemos para onde olhar, onde buscar apoio, onde balizar nossa vida. Nossa liberdade tornou-se nossa maior ameaça e nossa maior obrigação. Precisamos nos orientar não por luzes externas, faróis que guiavam os grandes navios em mares noturnos. As luzes externas se enfraqueceram… E as referências migraram para dentro de nós mesmos, desafiando-nos a construir uma interioridade que não seja fútil, uma identidade que nos permita viver de forma autêntica.

“Isso é culpa da pós-modernidade”, dizem os pessimistas, “esse tempo que privilegia a subjetivação, tira as referências e favorece o medo”. Mas não é bem assim! Não é de hoje que o ser humano se sente perdido quando lhe tiram suas bases externas. E uma hora elas são tiradas. Vejam só os apóstolos de Jesus. Acostumados a seguir o Mestre de Nazaré, suas vidas seguiam iluminadas pela luz do Nazareno. Tinham fome, ele dava de comer. Alguém estava doente, ele estendia a mão, dizia uma palavra encorajadora e a doença se dissipava. Diante das autoridades perseguidoras, ele tinha uma palavra de coragem. Diante da religião pouco humana, ele tinha uma advertência a fazer e uma ruptura a promover…  Mas chegou a hora de sua morte, e os discípulos ficaram perdidos. “Nós achamos que ele seria diferente, que ia restaurar o reino de Israel, mas eles o mataram e já é o terceiro dia”, desabafam suas angústias com um peregrino os discípulos de Emaús ao longo do caminho.

Essa dor de estar perdido, sem uma bússola para nos orientar, perpassa o coração humano. A necessidade de procurar referências é uma exigência antropológica; foi apenas agravada pela fragilização das instituições, própria de nosso tempo. Mas não é nova, nem foi inventada hoje. Tão antiga, tão nossa essa impressão, tão enraizada no íntimo de nós, que nos parece constitutiva!

Acompanha essa sensação de estar perdidos uma nostalgia do passado… Quando Lucas descreve que Jesus se despediu dos seus e partiu para junto do Pai (Ascensão do Senhor), narra que os discípulos ficaram feito bobos olhando para o céu sem saber o que fazer. Não havia o que falar. “Fica conosco!?” não era apropriado, pois já tinham experimentado que sua presença não se dissipava com sua visão nas nuvens. Era hora de assumir a própria vida, sem ficar feito crianças ao sabor de qualquer vento de doutrinas, guiados apenas por referências externas. O Mestre de Nazaré agora habitava o mais íntimo deles, estava com eles de uma forma nova, mas tão misteriosa, e ao mesmo tempo tão plena, que não sabiam o que fazer. Então ficaram perdidos, olhando para o alto, como que à espera de um milagre, de um desobrigar-se do fatigoso trabalho da interiorização. Era hora de recomeçar: “Sereis minhas testemunhas!”, disse-lhes o Ressuscitado (At 1,8). Nada de chorar a ausência de Jesus. Nada de medo! Hora de amadurecer e assumir a missão.

Perdidas a ingenuidade e a segurança dos baluartes externos, é hora de recomeçar; algo de bom ressurge.  Como disse Machado de Assis: “Um horizonte, a saudade do que não há de voltar. Outro horizonte, a esperança dos tempos que hão de chegar”. Se um horizonte se fecha, outro se abre com possibilidades impensadas, convidando a experiências novas e integradoras.


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