“Ficareis tristes, mas a vossa tristeza
se transformará em alegria.” (Jo 16,20b)

 “porque, afinal, compreendi
que não se frui bem do fruído,
senão depois de tê-lo padecido…”[1]
(Francisco Luis Bernardez)

 A vida se torna complexa e enfadonha cada vez que nela depositamos nossas ilusões. Uma ilusão comporta um duplo trabalho: iludir-se e desiludir-se. Toda a fragilidade da vida se revela a quem constrói sua vida em torno de uma ilusão. Não estamos falando de sonhos e projetos reais, mas de projeções, idealizações em torno de algo ou de alguém. Trata-se de coisas tais como a vida perfeita, a paz inalterável e coisas próprias de mentes românticas. Quanto maior a ilusão e o que construímos em torno dela, tanto mais complexa se torna a vida e muito mais doloroso o desengano. A vida sem um olhar realista torna-se uma região onde imperam desencantos e decepções.

Uma das mais enganosas e frequentes ilusões que conservamos é a de uma vida povoada só de alegrias, sem nenhuma dor ou sofrimento; uma espécie de paraíso terrestre, no qual a vida é poupada de todo limite e de toda dor que lhe são próprios. Tal ilusão talvez provenha de um conceito errado da própria alegria. O que é a alegria? Um estado de vida sem qualquer mal-estar ou incômodo? Um estado de êxtase e prazer constante, um clímax de contentamento? Não! A alegria não é comodidade e bem-estar permanentes. Não é calma e ausência de conflitos, nem é transbordar de risos e euforia. A alegria muitas vezes precisa ser sofrida. Mas como sofrer a alegria?

A alegria verdadeira, aquela que vem “desde dentro”, se dá na luz da verdade e não no engano. Somente um coração capaz de assumir cada um dos seus dias, de pô-los sob a luz da verdade,se encontra apto a viver a alegria. A luz da verdade ilumina a vida, mas faz doer; a verdade revela em nós o que queremos ver e também aquela nossa região sombria que escondemos de nós mesmos, mas nos interpela. Para nós cristãos, essa luz vem de Deus que habita o íntimo de nós mesmos. Essa abertura para Deus ilumina nosso coração e o pacifica; leva-nos por caminhos nem sempre bem-sucedidos ou prazerosos, mas gera oportunidades de crescimento e de evolução, de serviço e de entrega, de doação e de desapego, de escolha e de renúncia. Angústia e tristeza serão, muitas vezes, o único alimento e a única lição do caminho. Feliz o coração capaz de sofrer em Deus! Feliz o ser humano que se permite escolher com coragem e dizer sim quando tudo ao redor grita não! Feliz quem toma posse soberana de sua vida para entregá-la! Sabendo doar-se por inteiro, mesmo quando a preço da dor, saberá – em ocasião oportuna – sofrer também a alegria. Feliz, porque o vazio que deixam a renúncia e o desapego só será preenchido pelo amor de Jesus. Feliz, porque deixará que a alegria o fira, o marque, o atravesse imprimindo cicatrizes.  Feliz, porque será dono de sua vida e, ao olhar suas cicatrizes, saberá quem é.

Deixar-nos ferir pela alegria não é – que fique bem claro – nos deixar levar pelo exagero da euforia. É fazer com o coração, cheio de confiança amorosa em Deus, a caminhada áspera de uma vida acrisolada no fogo das intempéries existenciais. É dormir tranquilo por ter construído, a cada dia, a paz, ainda que no meio dos conflitos.

[1]Tradução nossa.“Porque después de todo he comprendido/ que no se goza bien de lo gozado/ sino después de haberlo padecido.”


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