Outro dia, para meu espanto, participei de uma missa dominical cheia dos protocolos. Tinha até cerimoniário vestido a caráter. Era ti-ti-ti e frescura para tudo quanto é lado. Ninguém dava um passo sem a ordem dele, um jovenzinho com cara de liturgista. O presidente da celebração, os leitores, os ministros, todos esperavam um sinal seu para prosseguir com os ritos. Cada leitor era buscado em seu lugar, conduzido até o ambão, mas não sem antes fazer a vênia prescrita junto com o cerimoniário. Terminada a leitura, o cerimoniário chegava com o salmista e repetia a mesma cena. Tudo ensaiadinho. As cabeças se inclinavam na mesma hora, com a mesma angulação, como numa ginástica rítmica digna de uma olimpíada. Então, comentei com a pessoa ao meu lado: “Não estou entendendo! Por que tem um cerimoniário nessa missa se esta é uma missa dominical? Normalmente, os cerimoniários atuam nas liturgias em que acontecem uma ordenação diaconal ou presbiteral ou os votos solenes de um religioso. Eles estão ali para ajudar a celebração a fluir sem atropelos, pois, como são muitos ritos, existe o risco de – no nervosismo do momento – ficar algum rito importante para trás. Por que a presença de um cerimoniário na missa dominical? Juro que não estou entendendo”. Então, minha amiga me explicou que esta é a rotina da paróquia. E que a equipe de liturgia se orgulha de dizer: “Temos a liturgia mais cerimoniosa de toda a diocese”.

Depois desse episódio, fiquei pensando no que fizemos com nossa liturgia. Eliminamos da ceia eucarística toda criatividade, toda espontaneidade, todo clima de familiaridade, de intimidade, de refeição entre irmãos que se amam e vivem a fraternidade. Transformamos nossa liturgia numa cerimônia, num conjunto de ritos e símbolos prescritos num missal. Não celebramos mais a alegria de estarmos juntos em torno do Ressuscitado, daquele que se entregou por todos e permanece vivo junto aos seus. Nem ofertamos com ele nossa vida em oblação ao Pai para ser sinal de sua presença no mundo. Não! Realizamos uma cerimônia: um conjunto de atos formais e solenes, segundo um rito prescrito. Triste isso!

As paróquias têm adotado um estilo litúrgico que me preocupa. A missa transformou-se numa cerimônia pomposa de mau gosto, pois faltam a ela o requinte e a beleza das grandes cerimônias,  assim como a erudição e a profundidade das palavras dos grandes oradores. De que adianta um leitor vestido com os tons do tempo litúrgico, se o som está horrível e ninguém escuta a leitura? De que adiantam vestes sacras de grifes, se o presidente da celebração não consegue fazer uma homilia com um mínimo de nexo e de teologia razoável? De que adianta um ritual impecável se a comunidade de fé se sente excluída da celebração? De que adianta uma “missa cerimoniosa” se não acontece a comunhão da comunidade com Deus a quem ela faz culto? De fato, o Vaticano II e sua reforma litúrgica ficaram só no Compêndio. “Tenho saudades daquele tempo…”, diria padre Zezinho!

Aos presbíteros de boa vontade – e de bom senso, é claro! – recomendo: muito antes de cerimônias pomposas, cerimônias que comuniquem o mistério celebrado; muito antes de roupas glamourosas, simplicidade e fraternidade revestindo o celebrante; antes de um cerimoniário que nos indique como fazer corretamente a vênia, uma comunidade reverente e santa que sabe e vive o que celebra! Fica aí a dica!


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