Temos visto por aí, na internet, nas comunidades eclesiais, nos cursos de formação cristã, uma verdadeira disputa pela sabedoria. Cada um arroga para si o privilégio do saber. Alguns exibem seu latim; outros arrotam grego e hebraico. Uns exibem títulos; outros exibem tempos vividos no exterior, nas melhores faculdades católicas. Tem quem se sinta sabedor da liturgia porque fez os cursos oferecidos pela diocese; tem quem se ache catequeta porque frequentou a Escola de Formação Diocesana…

Para exibirem suas sabenças, recorrem a grandes concílios, a pontificados célebres, a documentos da Santa Sé e da CNBB. Sabem de cor os parágrafos que justificam suas condutas e escolhas teológicas. Os rituais litúrgicos não lhes são ignorados. E, em nome da santa e reta ortodoxia, são capazes de colocar na fogueira o primeiro coitado que pensar diferente.

Pessoas com esse perfil não toleram a diversidade; ignoram a multirreferencialidade da sociedade contemporânea; têm saudades da cristandade e querem restaurar “a civilização cristã”. A homogeneidade é sua lei; a Igreja é detentora do saber, mãe e mestra – nunca serva e aprendiz, ou discípula de Cristo. Para essa gente, sabedoria é saber enciclopédico e não conhecimento da vida e das relações humanas. Não sei para que serve tanto saber enciclopédico! No campo da fé, conhecimento é bem-vindo, mas arrogância é coisa que não coaduna com o evangelho. Saber muito não nos torna mais cristãos. O Dr Google sabe tudo, nem por isso é cristão. Em tempos em que as informações estão disponíveis a todos na internet, o acúmulo de dados parece não colocar ninguém em situação de privilégio. Erudição é coisa que se aprende com o tempo, ainda mais quando se tem boa memória. Mas sabedoria e bem-viver são coisas difíceis de se aprender. Nossas comunidades deveriam valorizar mais os sábios, não os eruditos. E como disse Jesus, a verdadeira sabedoria, o Pai a escondeu dos sábios e grandes e a revelou aos pequeninos (Mt 11,25).

Sugiro aos párocos e ministros da Igreja que valorizem mais a sabedoria popular. Que saibam acolher a fé simples do povo, mas sempre provada na tribulação como o ouro no cadinho! Que saibam reconhecer em cada irmão o saber-viver que lhe é próprio! Que saibam valorizar cada dom, cada tarefa bem cumprida, mesmo as mais simples! Que não deixem crescer na comunidade eclesial a disputa pelo primeiro lugar do saber! Que ajudem sua gente a perceber que o menor dos dons, quando colocado a serviço, é tão valoroso quanto qualquer outro! E que todo conhecimento intelectual é nada se não é usado para servir e amar os pequenos!

Uma comunidade eclesial se revela autenticamente cristã não por seu conhecimento das regras da Igreja, de seus documentos ou de seus rituais litúrgicos, mas por sua fraternidade, por sua capacidade de amar e perdoar. Lembramo-nos de Luciano de Samósata que registrou o espanto dos não-cristãos acerca da vivência dos primeiros cristãos: “Vede como se amam!” e não “Vede como são sabidos e inteligentes!”. O amor é a medida da autenticidade cristã e não a intelectualidade. Que o conhecimento e a formação são importantes, ninguém duvida. Mas colocar erudição e intelectualidade como padrões de vida cristã é um equívoco. Fica aí a dica!


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