2

13 Depois que os magos se retiraram, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”.
14 José levantou-se, de noite, com o menino e a mãe, e retirou-se para o Egito;
15e lá ficou até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: “Do Egito chamei o meu filho”.
16 Quando Herodes percebeu que os magos o tinham enganado, ficou furioso. Mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o território vizinho, de dois anos para baixo, de acordo com o tempo indicado pelos magos.
17 Assim se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias:
18 “Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos e não quer ser consolada, pois não existem mais”.
19 Quando Herodes morreu, o anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e lhe disse: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel; pois já morreram aqueles que queriam matar o menino”.
21 Ele levantou-se, com o menino e a mãe, e entrou na terra de Israel.
22 Mas quando soube que Arquelau reinava na Judéia, no lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Depois de receber em sonho um aviso, retirou-se para a região da Galiléia
23 e foi morar numa cidade chamada Nazaré. Isso aconteceu para se cumprir o que foi dito pelos profetas: “Ele será chamado nazareno”.

Situando

Depois de narrar a adoração dos magos, Mateus elabora três brevíssimos relatos teológicos que, por partilharem um mesmo estilo, estrutura e temática, compõem uma unidade literária coerente e coesa: a fuga para o Egito (Mt 2,13-15); a matança das crianças de Belém (Mt 2,16-16) e o retorno a Nazaré (Mt 2,17-23). O capítulo 1 tinha revelado a identidade do messias (filho de Abraão, filho de Davi, nascido de Maria, gerado pelo Espírito Santo, acolhido por José); o capítulo 2, depois de esclarecer o lugar de nascimento (oriundo de Belém), prefigura, na adoração dos magos, a acolhida das nações e, na perseguição de Herodes, a rejeição do judaísmo oficial.Completa-se, assim, o Evangelho da infância, cujas narrativas, de indubitável força catequética, preparam o leitor para compreender melhor o que virá depois.

Estilo e estrutura

Continua o estilo midráxico, característico de todo o capítulo 2. Na verdade, mais que de um estilo literário, trata-se de um método de interpretação das Escrituras, típico dos círculos rabínicos, pelo qual se visava exprimir e atualizar o texto, em busca da sua significação para os tempos hodiernos (cf. estudo 6).

A sobriedade e a concisão caracterizam os três episódios. Nem profusão de detalhes, nem maiores delongas; apenas o essencial: tudo acontece para que se cumpram as Escrituras. Três lacônicas frases oferecem o contexto temporal, delimitam as narrativas e facilitam a transição entre uma e outra: “Depois que os magos se retiraram…” (cf. Mt 2,13); “Quando Herodes percebeu…” (cf. Mt 2,16); “Quando Herodes morreu…” (cf. Mt 2,19). Paralelamente, três citações do AT servem de encerramento e oferecem a chave teológica de leitura (cf. 2,15.18.23).

A fuga para o Egito

O v. 13a indica o contexto temporal e demarca o relato. Mais uma vez, entra em cena o “anjo do Senhor”: a fórmula remete veladamente ao próprio Deus, pois, diferente da angelologia medieval, que viu nos anjos seres pessoais de natureza espiritual, em Mt – que bebe nas águas do judaísmo –, a expressão constitui uma figura literária para falar, sem mencioná-lo, do próprio Deus. Trata-se, enfim, de um recurso utilizado para salvar a absoluta transcendência de Deus, a quem ninguém pode ver e cujo nome não pode ser pronunciado (cf. estudo 5). Em sonhos: no momento em que o homem dorme, Deus atua, revela seus planos, se dá a conhecer (cf. estudo 5). A mensagem é imperativa e peremptória: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito!”, até que estejam a salvo do sanguinário Herodes (v. 13b).

O Egito, que, na memória judaica, era sinônimo de escravidão e de opressão, constituía, no entanto, um lugar de refúgio para os perseguidos políticos (cf. 1Rs 11,40; 2Rs 25,26). Os verdadeiros planos de Herodes, que, na noite do nascimento, tinha pedido aos magos informações sobre o menino, para que pudesse ir adorá-lo (cf. Mt 2,8), são agora descobertos: procura o menino “para matá-lo”. Mas Deus intervém, mais uma vez, em favor do seu ungido, através do justo José. Este recupera o protagonismo: levantou-se e retirou-se, com o menino e sua mãe, para o Egito (v. 14). A noite, que, no resplendor de uma estrela tinha anunciado o nascimento do salvador (cf. Mt 2,2), protege agora seus passos, ocultando-os do iníquo perseguidor. Pois, como outrora a nuvem tenebrosa tinha ocultado o povo das tropas do faraó, no deserto (cf. Ex 14,20), assim também a noite escura coloca José, Maria e Jesus a salvo das maquinações do rei.

A fórmula de rigor encerra o relato: “Assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta” (v. 15). O texto citado é Os 11,1, no qual o evangelista vê um anúncio profético da saída de Jesus, novo Moisés e filho de Deus, das terras egípcias. Pois, se Israel rebelde é o filho de Deus, muito mais Jesus, que ajustou-se em tudo à vontade do Pai, é o Filho por excelência.

Eis um claro midraxe cujos protagonistas nos remetem aos grandes heróis do passado. Como o patriarca do mesmo nome, José, o esposo de Maria, assume a missão de garantir a supervivência familiar em tempos de adversidade. Nele, de fato, as palavras do filho dileto de Jacó tornam-se contemporâneas: “Deus me enviou à vossa frente para assegurar-vos a sobrevivência no país [do Egito] e preservar-vos as vidas para uma libertação grandiosa” (Gn 45,7). Por sua vez, em Jesus – cuja vida realiza definitivamente a libertação prometida –, atualizam-se as peripécias vividas por Moisés, o grande – porém, limitado e provisório – libertador do AT. Pois, assim como Moisés teve que fugir do rei do Egito que o buscava para matá-lo (cf. Ex 2,15), assim também Jesus deve fugir do rei da Palestina que, a qualquer preço, busca-o com idêntico propósito. A comunidade mateana, pois, pode ficar tranquila: Jesus é o novo Moisés, que refaz o caminho do êxodo, conduzindo a comunidade de fé para a libertação definitiva.

A matança das crianças belemitas

O v. 16 delimita temporalmente o segundo relato e revela, ao mesmo tempo, o estado de ânimo do tirano: diferente do justo José, que pula do leito no meio da noite, mas conserva a calma; Herodes “ficou furioso”. Mandou, pois, assassinar as crianças de dois anos para baixo, de acordo com o tempo indicado pelos magos (v. 16). A violência de Herodes condiz com o que sabemos dele: foi cruel e perseguiu, com ferocidade, todo eventual opositor. O resto do relato carece de verossimilitude histórica, não existindo registro nem indício nenhum de uma matança semelhante – por sinal, difícil de esquecer. Não é de surpreender, pois não é com o rigor histórico a preocupação do evangelista, mas com a atualização das Escrituras a partir de Jesus:assim como Moisés viu-se ameaçado, quando criança, pelos decretos do faraó (cf. Ex 1,16; 2,3), assim também Jesus vê-se ameaçado, recém-nascido, pelos decretos herodianos. Mas, agora, como no passado, o Deus dos oprimidos protege seu ungido para, através dele, realizar a libertação decisiva. Esse é precisamente o cerne deste relato midráxico.

Desta vez, a citação que encerra a narrativa provém do profeta Jeremias (cf. Jr 31,15 – v. 18), que alude – metaforicamente – ao pranto desconsolado de Raquel, matriarca do povo eleito, que mesmo em seu túmulo, situado nas proximidades de Ramá, teria chorado por seus filhos desterrados. Mateus utiliza, então, as palavras do profeta, fora do seu contexto histórico originário. Para ele, é importante que as Escrituras se cumpram sempre! Até no relato de morte dos inocentes, a Escritura ganha forma.

Ainda que trágica, a perícope se tornou certamente consoladora para a comunidade mateana, abalada pela perseguição de judeus e romanos. Jesus perseguido, apenas nascido, pelos opressores deste mundo, fora protegido pelo próprio Deus; do mesmo modo, o Senhor toma conta da comunidade nascente. As palavras esperançosas de Jeremias para a padecente Raquel, embora não citadas pelo evangelista, ressoam, assim, no coração dos discípulos de todos os tempos, agitados por mil e uma tempestades, crises e formas de violência: “Descansa tua voz do gemido, poupa os olhos das lágrimas! Pois há uma paga por teus trabalhos: – oráculo do Senhor – eles voltarão da terra inimiga! Há esperança!” (Jr 31,16-17a).

O retorno a Nazaré

Pela terceira vez, Mateus delimita a narrativa situando a ação temporalmente: “Quando Herodes morreu” (v. 19a). De novo, o anjo do Senhor atua como intermediário entre Deus, o absolutamente transcendente, e José, o seu servo (v. 19b), que, como antigamente fizera no Egito o filho amado de Jacó, discerne, em sonhos, os caminhos do Senhor. A ordem é semelhante à anterior, mas, desta vez, o itinerário foi invertido: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e volta para a terra de Israel…” (v. 20a). O resto do oráculo lembra-nos da morte do faraó, no final do autoexílio de Moisés na terra de Madiã (cf. Ex 2,23; 4,19 – v. 20b). Com a mesma resolução que antes, José levantou-se – atitude do homem disponível – e, com o menino e a mãe, entrou na terra de Israel (v. 21). A cena é eloquente: como Josué conduziu o povo libertado por Moisés até a Terra Prometida, assim também o justo José conduz Jesus, fundador do novo Israel, e sua mãe de volta para a pátria forçosamente abandonada. Mas, ao saber que Arquelau – tão sanguinário como Herodes, seu pai –, reinava na Judeia, José teve medo de ir para lá (v. 22). E, advertido em sonhos, pela quarta vez (cf. Mt 1,20; 2,13; 2, 19. 22), retirou-se para a região da Galileia, para uma cidade chamada Nazaré (v. 23a). Significativos os planos de Deus, que faz da ignorada Nazaré – nunca antes citada nas Escrituras – e não de Jerusalém – capital religiosa do judaísmo –, a morada do filho de Deus. Contra toda esperança, o messias esperado vai morar, assim, na periférica Galileia, situada ao norte da Palestina e habitada, não só por judeus, mas também por pagãos. O messias esperado começa a desconcertar…

Tudo acontece, de novo, para que se cumpram as Escrituras. A citação final é, talvez, a mais obscura de todo Mt: “Ele será chamado nazareno”. Não está claro, de fato, que profecia é essa. Alguns viram na expressão uma alusão ao voto dos nazireus, que, como Sansão, o mais célebre deles, consagravam-se a Deus mediante uma vida austera, sem passar a navalha pelos cabelos (cf. Nm 6). Para outros, Mateus não alude a nenhuma profecia específica, mas a todo o testemunho profético, que, no conjunto, indicaria que o Cristo, servo humilde de Javé, iria começar seu ministério num território depreciado, como a Galileia, e não na Cidade Santa, Jerusalém. Sem pretender, com isto, resolver o enigma, parece-nos incontestável a referência a Nazaré, da qual “nazareno” é o gentilício. Além disso, somam-se cinco citações das Escrituras Judaicas apenas nos relatos de origem: número mais que significativo, pois é o número da Torah. De novo, parece que o evangelista nos lembra que Jesus é o Novo Moisés, cinco vezes confirmado pelas Escrituras.

* * *

Jesus é o novo Moisés que, guiado pelo Pai, realiza o caminho do Antigo Israel e conduz seus seguidores para a libertação definitiva. Os obstáculos, é verdade, são muitos; mas Deus cuida do seu ungido e da comunidade reunida em torno dele.


Estudo anterior:   6. Primícias das Nações (Mt 2,1-12)
Próximo estudo: 8. O precursor (Mt 3,1-12)
Print Friendly, PDF & Email