“Gentileza gera gentileza”. Essa frase ficou célebre na boca de um morador de rua no Rio de Janeiro que distribuía gratuitamente flores e sorrisos aos passantes. Não é à toa que o Doador de gentilezas ganhou o nome de Profeta Gentileza. Com suas longas barbas e vestes brancas e um estandarte na mão, José Datrino passou pelas ruas da Cidade Maravilhosa fazendo o trivial: sendo bem-educado com todos. E tal foi sua dedicação a esse ofício, que o Profeta Gentileza ficou na memória dos transeuntes.

De fato, gentileza é coisa rara. Quando somos atingidos por ela, normalmente nos derretemos. Ficamos desarmados diante de sua beleza e acabamos retribuindo com outras gentilezas. “Gentileza gera gentileza”, dizia o Profeta das ruas.

Ora, se em pleno centro do Rio de Janeiro, em meio à agitação de uma grande cidade, a gentileza pede espaço e se impõe, quanto mais no meio religioso, que lida com o sagrado e procura manifestar o Deus-amor. Gentileza é condição para anunciar o evangelho da graça.

Surpreende-nos, no entanto, quando – bem ao contrário da gentileza esperada – encontramos grosseria, xingatórios e baixarias nos ambientes eclesiais. Os líderes gritam com o povo; os presbíteros desprezam seus paroquianos; os bispos maltratam seus funcionários; os teólogos arrogam para si os privilégios do saber… Todos, um a um se esquecendo que o evangelho da graça só pode ser anunciado com graciosidade; que o evangelho da alegria só pode ser anunciado com alegria! Coisa triste de se ver!

Se, em todos os ambientes, a grosseria é coisa abominável, quanto mais nos ambientes eclesiais e litúrgicos. Não é raro a gente ver o presidente da celebração destratar alguém em público: um leitor que gaguejou na hora da proclamação do texto; um cantor que escorregou no tom na hora do canto; um ministro da eucaristia que se distraiu e não atendeu ao comando do presbítero; um coroinha que se encantou com o colega e não fez corretamente seu serviço no altar…

E ainda mais: presbíteros que ralham não só com os servidores do culto religioso, mas ainda se sentem no direito de destratar o povo, de ser grosseiro com as crianças, de impor com grosserias regras sobre como vestir-se ou sobre como portar-se na liturgia. Uma coisa realmente lamentável. Aquele que deveria comunicar a beleza e a gentileza de Deus, que se fez homem para nos fazer mais gente, acaba mostrando o pior da natureza humana: a capacidade de diminuir o outro, de desprezá-lo, de fazer com que ele se sinta um lixo.

Conheço uma porção enorme de presbíteros que – quando criticados na sua liturgia – invocam a teologia do “in persona Christi”. Ou seja, o presidente da celebração celebra “na pessoa de Cristo”. É Cristo mesmo o celebrante da liturgia na pessoa do padre, afirmam eles. Mas como entender que o presbítero que celebra é Cristo se, na ação litúrgica, ele agride e humilha as pessoas? Por acaso Jesus faria tal coisa? Não foi ele aquele que acolheu e amou a todos, justificando seus erros e dando-lhes novas chances de recomeçar? Teria Jesus coragem de humilhar alguém e de fazer pouco caso dos pequeninos? Certamente que não! O Nazareno passou pelo mundo fazendo o bem e acolhendo a todos com sua gentileza: um olhar de amor para aquele desprezado; uma mão estendida para o caído; um abraço para o abandonado; um toque naquele que todos repudiavam… Foi assim que agiu Jesus; é assim que devemos agir cada um de nós cristãos. Na liturgia e na pastoral em geral, é bom lembrar: “Gentileza gera gentileza”. Uma coisa tão simples, uma regra tão básica! Fica aí a dica!


Dica anterior:   78. A cadeira do presidente
Próxima dica:    80. A verdadeira sabedoria
Print Friendly, PDF & Email