“Estando fechadas as portas onde se achavam os discípulos,
por medo dos judeus, Jesus veio” (Jo 20,19)

“O sol levantou mais cedo e quis
Em nossa casa fechada entrar
E ficar”
(Beto Guedes e Fernando Brant)

 

Uma das mensagens mais importantes da ressurreição de Jesus é encontrada em nos lábios do próprio ressuscitado: “Não tenhais medo!”.

Quem de nós nunca teve medo? Quem de nós nunca tremeu as perdas, gelou as mãos, suou de medo? Quem nunca rezou pedindo que aquele momento passasse, que o terror se fosse e que a sensação de segurança voltasse? O medo é sentimento universal que já visitou todos nós. Algumas vezes com razão de ser, quando nossa vida se apresentava ameaçada de fato; outras, sem nenhuma explicação razoável, sem nenhum fundamento racional. Mas sempre o medo, esse terrível inimigo, paralisador das forças internas, consumidor das energias do corpo.

O Evangelho de João nos diz que os discípulos, após a ressurreição de Jesus, estavam trancados em casa, com medo. A tristeza, associada ao medo, produziu fechamento, isolamento. E não é bem assim? Quando estamos felizes, escancaramos as portas da casa, da vida, do coração, e vamos ao encontro do outro, contar-lhe as maravilhas acontecidas em nossas vidas. Quando estamos com medo, nos fechamos: portas, janelas, tudo fechado! E, curioso, mesmo nessa situação, Jesus entra na casa dos discípulos medrosos, entra em suas vidas, rompe as barreiras, se mostra ressuscitado a eles. Aquele que morreu, mas venceu a morte, se mostra aos vivos, mortos de medo!

E, ao entrar, Jesus se põe no meio deles. Não no alto, para indicar sua soberania; nem abaixo para implorar-lhes compaixão. Põe-se no meio deles, como um irmão querido que, finalmente, voltou para casa. E, dos seus lábios, ouvimos: “A paz esteja convosco!”. Será que deixaram-se alcançar pela voz de Jesus? Talvez o medo do “acerto de contas” tenha surgido naquele momento tal como Jesus, aquele que havia sido abandonado. De fato, o Ressuscitado poderia ter tirado seu abandono na paixão a limpo e perguntado a cada um presente ali a razão de o terem abandonado. Não é tão humano fazer isso? Quem de nós já não esperou o momento certo para jogar o outro na parede e exigir explicações? Imaginemos quantas páscoas já vivemos e ainda insistimos em alguns passos equivocados. Será que o Ressuscitado também não nos poderia fazer um interrogatório e questionar o nosso seguimento a ele? Mas até nisso Jesus nos revela um homem novo: dos seus lábios sai uma palavra encorajadora: “Que a paz esteja conosco!” Ao entrar na sala, Jesus vence as portas fechadas daquele cômodo; ao falar, ele vence as portas fechadas dos nossos ouvidos e sua voz alcança nosso coração. Agora nossa alegria é completa, pois todo nosso ser está envolvido com a boa-nova. Sai a aflição do coração; entra a paz doada pelo Ressuscitado. Sai o medo da morte;entra a alegria da ressurreição. A presença exorciza o medo. O êxodo desse vilão não se dá porque os discípulos compreenderam intelectualmente os fatos acontecidos, mas porque experenciaram uma presença transformadora, capaz de mudar a vida, de reorientar os destinos. Em Jesus,os discípulos percebem que não foram feitos para o nada, pelo contrário,foram feitos para a vida!

A passagem do medo, que paralisa, para o enfrentamento libertador dos fantasmas é uma das experiências mais marcantes da vida. Quem já superou algum trauma, quem já venceu algum medo, sabe da importância dessa superação. Quem já viu sua vida estagnada, sem chances de ir para a frente, ou quem já experimentou estar enclausurado em suas próprias angústias, sem ver uma luz brilhar para lhe devolver a esperança, sabe como é cruel estar escravo do medo e da des-esperança. Como cantou Jota Quest, é hora de dizer: “Ei dor, eu não te escuto mais. Você não me leva a nada. Ei medo, eu não te escuto mais. Você não me leva a nada”. Ainda bem que Jesus – sol nascente que nos veio visitar – levantou mais cedo do túmulo e, ressuscitado, entrou em nossa casa, tão fechada e com tantos medos! Ele veio para ficar. Veio aquecer nossos corações, abrir nossos túmulos, transformar nossos medos em confiança e esperança.


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