A liturgia tem se mostrado desde muito um lugar de encontro dos cristãos. Não é de hoje que a gente ouve falar que o altar reúne a comunidade, que ele a congrega, que em torno dele a comunidade se encontra com o Ressuscitado. Tão notável é sua importância que, na liturgia católica, quando o presidente chega ao presbitério após a procissão de entrada, beija o altar. E não só o presidente da celebração, mas também os leigos costumam fazer a vênia diante do altar. Mas por que beijar o altar ou fazer a vênia?

O que é o altar? Bom, a princípio, o altar é uma mesa. Uma mesa que pode conter a relíquia de algum santo, por exemplo, ou pode ser uma mesa comum. Em tempos idos, todos os altares tinham uma relíquia. Havia o costume de fazer um ritual de consagração do altar; para isso há um ritual próprio inclusive. Essas relíquias eram restos mortais do santo padroeiro (ossos, cabelo etc.), algum pedaço de um objeto que lhe pertenceu (um fiapo de sua veste, um objeto de seu uso pessoal etc.). Depois, com o passar dos anos e a multiplicação dos templos (catedrais, santuários, basílicas, igrejas e capelas), esse costume foi caindo em desuso, mantendo-se apenas nos grandes templos.

Porque é lugar no qual se celebra a eucaristia, o altar ganhou destaque. A noção de eucaristia como sacrifício de Cristo favoreceu a compreensão do altar com uma cruz, onde Jesus de Nazaré entregou sua vida por amor à humanidade. E o altar passou a ter destaque, merecendo toda reverência. Mas, apesar de toda reverência, o altar não é um lugar mágico ou santo, intocável, como a arca da aliança no Antigo Testamento, de forma que quem se aproximar dele será morto. Ando preocupada com o que ouço por aí a respeito desse tema. Vejamos dois casos para elucidar.

Primeiro, já ouvi padres dizendo que o leigo deve fazer a vênia diante do altar porque ele simboliza Cristo e o leigo, como não é ungido como o presbítero, tem que pedir licença para se aproximar. Ah, por favor, isso já é demais. Duas noções equivocadas: uma acerca do laicato e do ministério ordenado (o leigo seria inferior ao presbítero); outra acerca do altar como Cristo (que pede reverência dos subalternos e não aproximação daqueles que ama). Lembremo-nos do que diz o texto de Hebreus: “Aproximemo-nos com toda confiança do trono da graça…” (Hb 4,16). E também o que diz a Primeira Carta de Pedro: “Vós também, quais pedras vivas, sois edificados como casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus” (1Pd 2,5). Somos todos irmãos, irmanados em Jesus que nos acolhe em seu amor, povo santo, sacerdotal; ninguém maior nem menor: todos santificados em Cristo.

Segundo, uma leiga comprou briga um dia com uma florista que, ao arrumar a Igreja, colocou um ramalhete de flores sobre o altar enquanto fazia os arranjos. Como tinha problemas na coluna, tomou uma medida prática, para evitar que tivesse que se abaixar e se levantar muitas vezes para pegar os ramos para o arranjo. Isso deu um quiproquó, como dizem na minha terra. Disse a defensora dos bons costumes e da liturgia que esse gesto da florista era um abuso com o altar pois ele é lugar sagrado. Nada a ver! Ao saber do caso, lembrei a quem me relatava que essa distinção entre profano (como coisa do mundo, por isso desprezível) e sagrado (como coisa de Deus, por isso envolvida de mistério e temor) é perigosa. Sagrado é tudo que defende a vida e a dignidade humana; profano é tudo que maltrata o ser humano, que o desumaniza). Colocar flores sobre o altar de uma igreja não tem nada de desrespeitoso, ultrajante ou blasfemo. Ultrajante é agredir, desprezar, discriminar as pessoas. Blasfemo é ofender alguém para defender um altar. Lembrei ainda que, quando há catástrofes, muitas igrejas se transformam em abrigos para o povo; o altar se torna lugar de distribuir alimentos, roupas e outros objetos necessários para a vida. O que pode haver de ultrajante nisso? Nada! Só há dignidade e beleza em reconhecer que tudo – até o altar – está em função da vida e não em função de um rito religioso. A vida vale mais que qualquer rito, mesmo os mais sagrados.

Tomara que nossos pastores ajudem nossa gente a respeitar o altar (eis o sentido da vênia e do beijo), mas que o mistério que o envolve não seja desculpa para discriminar, oprimir e maltratar ninguém. Ao contrário, que seu mistério nos aproxime e nos ensine a viver em fraternidade, pois somos todos irmãos. Fica aí a dica!


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