“Pedis, mas não recebeis, porque pedis mal,
com o fim de gastardes nos vossos prazeres” (Tg 4,3)

 

“São tantas ilusões perdidas na lembrança…
Nessa estrada, só quem pode me seguir sou eu”
(Raimundo Fagner)

Como andam nossos pedidos? O que temos rezado? O que temos pedido a Deus? Será que o que pedimos ao Senhor condiz, de fato, com o que nosso coração deseja? Ou estamos perdidos em ilusões sem poder seguir nossos desejos mais íntimos? A coerência entre os desejos íntimos do coração e a prece é tema caro a Tiago. Para ele, o ser humano não deve viver dividido, viver na dualidade; deve ser uno como Deus é uno, sem divisão alguma, sem ambiguidades.

No filme Alice no País das Maravilhas, Alice está perdida, pois vários caminhos apresentam-se à sua frente e, por isso, põe-se a chorar. Aparece um gato que toma ciência da situação e pergunta: “Mas aonde queres chegar?” E Alice responde: “Não sei”. Então o gato conclui: “Se não sabes aonde queres ir, então qualquer caminho serve”. A menina ainda replica: “Só quero que chegue em algum lugar”. E o gato acrescenta: “Acredite: todo caminho leva a algum lugar”. Ora, esse pequeno texto nos oferece uma boa chave para lermos o versículo acima citado da Carta de Tiago.

A voz, no mundo bíblico, sempre sai do coração. Assim, espera-se que um pedido seja a manifestação de uma necessidade íntima da pessoa, por isso, seja qual for, é sempre acolhido delicadamente. Tiago nos alerta a não criar uma cisão nesta compreensão: pedir por desejos externos, que nada dizem ou transmitem à pessoa. Tal qual como Alice, estamos diante de uma infinidade de desejos e a cada dia são criados novos. Por isso é preciso saber aonde queremos chegar, para que nossa oração não seja em vão. Isso não quer dizer que nosso pedido será atendido, mas a coerência da prece já trará novo ânimo, novo fôlego, nova força, àquele que suplica. Não nos esqueçamos de que a palavra dita cria realidades novas.

E quando não sabemos aonde chegar, o que pedir? Um ditado africano diz: “Quando não sabes que passo dar para frente, volta atrás, compreende quem és e dá o passo necessário”. Logo, é preciso voltar ao nosso coração (nosso ser, nossa história), tomá-lo nas mãos e compreendê-lo sinceramente. A partir desse exercício, saberemos o que pedir, pois somos um ser uno e não dividido. A voz elevada a Deus em prece a partir do coração gerará unidade e não dualidade. Quando a origem de nossa prece (o desejo íntimo do coração) for também sua finalidade (a graça que nosso coração procura), então, teremos aprendido a rezar. Não pediremos mal, como disse Tiago. Ao contrário, não há prece mais bela que aquela que nasce da intimidade do coração e ilumina o caminho a seguir.


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