“Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Já vimos no estudo anterior que, tal como um sumário, este solene início do Evangelho já fornece uma espécie de itinerário do texto, em seu conteúdo, estrutura e forma. De fato, Marcos responderá a sua questão fundamental (“Quem é Jesus?”) com duas afirmações: ele é o “Cristo” e o “Filho de Deus”, marcando a divisão do texto em suas grandes partes:

Jesus é o Messias (Mc 1,1 – 8,30)

A forma hebraica MaSHiaH (Messias) foi utilizada de várias formas e com várias nuances no Antigo Testamento. Davi o prefigurou, ao unir as tribos de Israel sob um único reino. Nos tempos de opressão e injustiça da monarquia, o Messias era esperado como aquele que viria restituir a equidade e a paz. No Exílio, ele viria devolver a liberdade aos cativos – tanto que Ciro da Pérsia, ao dominar a Babilônia e libertar os escravos, entre eles os israelitas, foi louvado como “messias”. E, no tempo de Jesus, não foram poucos os que encarnaram as esperanças messiânicas, pretendendo libertar Israel do jugo romano. Para um povo que se acreditava escolhido por Deus como sinal às “Nações”, um povo a quem Deus prometera uma terra de bonança, submeter-se ao jugo estrangeiro era demasiado humilhante. E, quanto mais duras as penas impostas pela dominação, maior a esperança de que o “enviado”, o “ungido” (MaSHiaH) de Deus estaria próximo. A partir da helenização da Palestina, essa expressão foi traduzida para o grego: cristoV (cristo, ungido). Assim, quando os discípulos, e com eles Mc, chamam a Jesus de “Cristo”, não estão inventando um novo título, mas reconhecendo nele a realização da esperança do povo de Israel.

Mas, se Jesus é o Messias, por que foi morto exatamente pelas autoridades religiosas de seu povo? Mc responde: porque, embora fosse o Messias, Jesus mostrou-se um messias inesperado. Afinal, entre tantas faces previsíveis para o Messias (o guerreiro Filho de Davi, o profeta, o sacerdote), Jesus surpreende ao revelar-se muitíssimo diferente. Mc o compara ao “Servo Sofredor” do Profeta Isaías (Is 42; 49; 50; 52), que carrega sobre si as nossas dores e, ao fazê-lo, cura-as para sempre; não o rei-guerreiro que vence as dores, mas o Servo que se irmana ao sofrimento dos humilhados. Assim Marcos compreende a vida e a morte de Jesus.

À pergunta sobre “quem é Jesus”, todos querem responder, desde o começo do Evangelho. Muitos ficarão “admirados” (expressão típica de Mc) e essa admiração suscitará a pergunta sobre “quem é ele”. Mas é justamente em Mc que aparece o segredo messiânico: Jesus proíbe severamente de propagar sua identidade. Os únicos que gritam a todo momento “quem é ele” são os demônios (“eu sei quem tu és, tu és o Santo de Deus” – Mc 1,24). E até a eles Jesus repreende (“Cala-te e sai dele” – Mc 1,25. Outras ocorrências: Mc 1,34; 3,11-12; 5,6-9). Por quê? Mais do que uma recordação histórica, ausente nos outros Evangelhos, a não ser nos textos que eles recolheram de Mc, o segredo messiânico tem finalidade literária e catequética. Em primeiro lugar, não é possível responder “quem é Jesus” apenas por ouvir dizer quem ele seja, é preciso fazer com ele o percurso, aprendendo de suas ações e palavras. Somente aí ele se mostrará e compreenderemos quem ele realmente é. Sendo o Messias inesperado, Jesus é (em Mc e até hoje) incompreensível àqueles que não fazem com ele o caminho do discipulado. Ademais, enquanto Jesus não cumprir integralmente sua missão, Mc não considera totalmente explicitada sua identidade messiânica e sua filiação divina. Muito aos poucos, o segredo vai se revelando (Batismo – Transfiguração – Calvário).

Essa primeira parte se conclui com o texto central de Marcos: Mc 8,27-33 (“Quem dizem os homens que eu sou?”). Nele, Pedro confessa a fé (“Tu és o Cristo”), mas também demonstra ainda não ter compreendido que tipo de Messias é Jesus, ao negar-lhe o sofrimento e a cruz. Ao longo da leitura do Evangelho, nos deteremos merecidamente nesse texto.

Jesus é o Filho de Deus (Mc 8,31 – 16,8).

 A segunda parte do Evangelho se dedicará a demonstrar em que consiste essa filiação divina de Jesus. Já no Batismo, a “voz de Deus” o havia proclamado (“Tu és o meu Filho” – Mc 1,11), citando o Sl 2,7. Na Transfiguração, a mesma voz novamente o dirá, agora a um grupo seleto (“Este é o meu Filho” – Mc 9,7). Durante o Julgamento, diante do Sinédrio, Jesus reconhecerá sua identidade (“‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus Bendito?’ ‘Sim, eu sou’” – Mc 14,61-62). Finalmente, no Calvário, depois de traspassado como o Servo de Isaías, Jesus será reconhecido pelo Centurião (“Na verdade, este homem era Filho de Deus” – Mc 15,39). Também ao longo da leitura do Evangelho, verso a verso, poderemos nos deter em cada um desses textos e compreender em que consiste a filiação divina, para Mc: não um privilégio ou uma fonte de garantias, mas a fidelidade sustentada até o fim.

 Finalmente, salta logo aos olhos que Marcos construiu seu texto sobre um esquema querigmático[1] primitivo, do Batismo de Jesus ao sepulcro vazio. Não há relatos de infância, nem aparições do Ressuscitado[2] ou longos e elaborados discursos. Sua narrativa se vale de um grego simples, quase coloquial. Questões como a “origem de Jesus segundo a carne”, sua infância e a plasticidade de sua ressurreição estão ainda ausentes em Mc e só aparecerão nos Evangelhos seguintes.

Na próxima semana, sem mais delongas, adentraremos a leitura propriamente do Evangelho. Outros pormenores serão tocados, quando necessários. Bom estudo!

 


[1] Por “querigma” (khrugma – kérygma: anúncio) compreendemos o primeiro anúncio que os discípulos fazem de Jesus, a partir da ressurreição: sua Paixão, Morte, Ressurreição e a efusão de seu Espírito. Muitos são os discursos querigmáticos, tanto nos Atos dos Apóstolos quanto nas Cartas Paulinas. Como exemplo emblemático, cf. At 2,14-36.

[2] Como veremos oportunamente, as “aparições do Ressuscitado” apresentadas em Mc 16,9-20 constituem um “Apêndice” acrescentado a Mc a partir da leitura de Mt e Lc. Não faziam parte, portanto, do texto primitivo.


Estudo anterior:   5. O Evangelho de Marcos: origens
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