Deus faz surgir seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos (Unsplash/ Unsplash)

Uma fé madura vê na história o jogo das liberdades individuais e coletivas

É mais fácil atribuir a Deus nossas desgraças que encarar as consequências de nossas escolhas. Na perspectiva de uma fé infantilizada, isentamo-nos, muitas vezes, de nossas responsabilidades diante dos fatos. Com isso, não hesitamos em delegar a Deus o curso de nossa história. Acabamos incorrendo numa teologia da retribuição, na qual as bençãos e os males são resposta de Deus à nossa fidelidade ou infidelidade, individuais ou até mesmo coletivas. Essa mentalidade teológica nos coloca numa situação de inimizade com nossa própria liberdade diante da vida. Talvez nunca consigamos responder para nós mesmos o enigma da nossa liberdade e o quanto ela nos qualifica como responsáveis por nossas ações diante do mundo e diante de Deus. E enquanto não nos compreendermos responsáveis por nossas ações, continuaremos agindo irrefletidamente e fazendo escolhas que acarretam infortúnios, tanto para nós quanto para os outros.

Se as teologias da retribuição persistem em alguns discursos religiosos e nas mentalidades de alguns grupos, o povo da bíblia, que está há quilômetros de distância dos nossos povos, já havia indicado os caminhos para fugir dessas teologias que aprisionam Deus e as pessoas. Já no antigo testamento somos provocados a compreender que as bençãos e os males podem suceder a qualquer pessoa, sendo ela boa ou má, fiel ou infiel. Nessa perspectiva, uma pessoa que enfrenta um sofrimento não necessariamente caiu numa situação de infidelidade ou falta de fé a Deus. Ela pode ser apenas uma pessoa muito justa sofrendo. Porque há acontecimentos que decorrem da nossa situação de existência, tais como a dor, a tristeza ou mesmo a morte. Por isso mesmo, colocar Deus na posição de alguém que nos devolve bençãos ou maldições relativas ao que fazemos é fechar os ouvidos para o que Jesus nos revelou do Pai do céu, “que faz surgir seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos” (Mt 5,45).

Em Deus há transbordamento de misericórdia. Ele está sempre disposto a acolher e perdoar, como expressões magníficas do seu amor muito mais abundante que o pecado (Cf. Rm 5,20). Por essa razão, as tentativas de explicar os infortúnios do nosso tempo na lógica da retribuição divina é, de longe, o fracasso da fé. Uma fé madura procura olhar para a história e ver justamente o jogo das liberdades individuais e coletivas, a fim de não se tornar alienada diante dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, salvaguardar Deus dos discursos manipulados. Por isso mesmo, os cristãos e as cristãs não podem se isentar de uma boa exegese e de uma boa hermenêutica do vivido. E, em virtude dessa leitura apurada dos sinais dos nossos tempos, também não podem negar suas responsabilidades sobre os rumos para os quais a vida caminha errante, individual e coletivamente.

Hoje nos perguntamos a razão de tanto sofrimento em decorrência da pandemia de Covid-19. Certamente, não atribuiremos essa conta a Deus. Porque ele chora baixinho em cada uma das mais de oitenta e sete mil casas cheias da ausência de alguém querido. A pandemia é um fato que nos marcará definitivamente. Não é possível voltar atrás. Mas é possível nos perguntamos o que aconteceu num passado longínquo e noutro recente e que hoje nos faz experimentar não somente a dor, mas a ausência da esperança por dias melhores. É hora oportuna, para cristãos e não cristãos, para um exame de consciência, seguido de um mea culpa e da tomada das nossas responsabilidades em nossas próprias mãos. É hora de reconhecer o voto errado nas urnas, a eleição dos filhos da morte e a instalação de um governo genocida sobre o povo pobre do nosso país. Se a pandemia não poderia ser evitada, ao menos nós poderíamos passar por ela com inteligência e com menores danos. Estamos dispostos a reconhecer que erramos e erramos grosseiramente feio?

Assim como o sol nasce para todos e as chuvas regam todos os campos, a morte é a irmã que vaga por todas as ruas e entra em barracos, palafitas e palácios. Não importando o número de inscrição no título de eleitor, o número outrora digitado nas urnas, nem a ingênua defesa, ao longo desses anos, de quem covardemente lava as mãos podendo agir para evitar as lágrimas de Deus e dos seus filhos e filhas. Por isso mesmo, precisamos enfatizar que a glória de Deus é que tenhamos vida em abundância, e que tudo o hoje vivemos é, antes de tudo, resultado da nossa liberdade irrefletida, inconsciente e conivente com os sistemas da morte. Não há retribuição divina em nossas desgraças. Apenas recebemos o saldo do cheque em branco que muitos assinaram.


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