A pergunta de Caim deve ser entendida como retórica, por a resposta é sim, somos responsáveis uns pelos outros (Unsplash/ Christine Sandu)

Respeito às normas de prevenção de contágio do coronavírus é expressão de cuidado

Para alguém que tem por hábito se debruçar sobre o texto bíblico, a fatídica fala do presidente da República, com seu “e daí?”, quando perguntado sobre o número de mortos vítimas pela Covid-19, não se lembrar da resposta insolente de Caim, quando interpelado por Deus, sobre onde estava Abel, é bastante difícil. Desde abril, quando o mandatário maior do poder Executivo deu essa resposta, o número de nomes registrados em atestados de óbito só cresce. E quantos “e daí?” temos ouvido e visto, por todo o país, por parte de pessoas que não fazem o mínimo esforço de esconder seu desprezo pela vida?

As pessoas religiosas costumam encher a boca para dizer que, como todos somos filhos e filhas de Deus, logo somos todos irmãos. Muitas dessas pessoas religiosas são as que não têm feito nenhum movimento de responsabilidade, para contribuir com o isolamento social, visto – por puro pedantismo – como histeria coletiva. Muito já se insistiu que, aquelas pessoas que têm o privilégio de se resguardarem em casa, deveriam fazer, não apenas como autoproteção, senão também como exercício de cidadania e responsabilidade coletivas.

Cada vez, pois, que as pessoas relativizam esses acordos sociais de mútua proteção, que são ancorados em questões técnicas e científicas sérias, é como se Caim continuasse em sua insolência, a responder a Deus com outra pergunta: “acaso sou o guarda de meu irmão?” (Gn 4,9). A fraternidade, nesse caso, torna-se fratricídio. Não é exagero: numa pandemia, a responsabilidade não é apenas do poder público, o que, em nosso país, deixa-nos à deriva. Ao contrário do que pensam os paranoicos conspiracionistas, o vírus não é uma artimanha de dominação global. Mas, não é nenhuma conspiração alucinada acreditar que o modo como o poder público e as elites lidam com a questão, possa ser nomeado como genocídio, o que tem acontecido no Brasil.

As primeiras pessoas a se infectarem foram as endinheiradas. Mas a primeira vítima fatal foi uma mulher preta, pobre: uma empregada doméstica. E a lista de nomes de pobres, sobretudo pretos, que morrem aos montes todos os dias, só aumenta. Mas são pobres, são pretos. Que importa isso, num país que estipulou teto de gastos, para não investir em saúde e educação, que aprovou uma reforma trabalhista que destruiu direitos, que fez uma reforma da previdência que indignifica os trabalhadores? É genocídio porque é um projeto de poder: resolve-se a crise dos pobres, aproveitando uma pandemia que dizima pobres. Um governo que odeia indígenas e quilombolas, negar água e materiais de proteção sanitária, apesar de terrivelmente escandaloso, é, pelo menos, coerente: alguém com bom senso esperaria outra coisa, desse governo que goza com o necropoder?

Mas o problema não é só o governo. Esse, que já é um super problema, tem o agravante da falta de sensibilidade de milhares e milhares de pessoas. Ficar em isolamento, longe do convívio de quem amamos, é ruim para todo mundo. Mas têm aqueles e aquelas que parecem sofrer bem mais que todos os outros: não podem ficar sem as festas. Celebram o que, afinal? A vida, que é passageira? Ou celebram, gozosos, o “antes eles do que eu”?

Deveríamos considerar a resposta-pergunta de Caim, como uma pergunta retórica: “acaso sou o guarda de meu irmão?” Essa é uma pergunta que já vem carregada de resposta: sim! O verbo guardar é uma escolha de tradução muito significativa: inspira cuidado, proteção, zelo. Para um país cujos cidadãos e cidadãs, mormente, orgulham-se de ser o mais populoso em cristãos, o comportamento de cuidado de uns para com os outros, sobretudo nesse momento de grave crise, não deveria ser o da insolência, tal como o de Caim, mas o daqueles que têm convicção de que uma verdadeira fraternidade se constrói com a responsabilidade e a solidariedade para com todos e todas.


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