Durante muito tempo, a Igreja Católica entendeu que, na sua evangelização, deveria converter todas as pessoas ao cristianismo. As outras religiões eram vistas com desconfiança. Era preciso levar o catolicismo romano para terras além-mar e fazer com que todos fossem batizados na mesma fé que professamos. Em nome desse esforço evangelizador, aconteceram exageros: muito desrespeito, muita colonização, pouca evangelização. Culturas inteiras foram dizimadas, religiões desrespeitadas, pessoas assassinadas ou violentadas “em nome de Jesus, amém!”. Tempos tristes dos quais não sentimos saudade. Não é o caso de condenar os que nos precederam na história, mas certamente não queremos mais evangelizar assim. Em tempos de pluralidade de expressões e diversidade religiosa, o mínimo que se exige é o respeito às várias profissões de fé e o reconhecimento do direito ao culto. Se, em outros tempos, a religião era o valor máximo, sacrificando inclusive a liberdade dos indivíduos, hoje, a liberdade religiosa é um valor bem maior que a própria religião.

Se dialogar entre os cristãos exige esforço e boa vontade das partes envolvidas, o que dizer do diálogo com os não-cristãos, crentes que professam outro credo? De que ponto partir? Da diversidade da fé professada ou de um ponto de unidade entre elas? Haverá algo que irmane essas profissões de fé facilitando um começo de conversa? Ou não é preciso ponto de intercessão entre elas, bastando apenas o fato de todos serem movidos pela fé e clareados por uma luz divina? Ou seria o propósito de sempre amar e de se comprometer com o bem da humanidade a alavanca capaz de nos movimentar em direção uns dos outros? Certamente, estamos apenas tateando nesse campo, como cegos às apalpadelas. Apesar de serem pequeninos, os passos são muito significativos e não podem parar. Como disse o anjo a Elias “come e bebe, pois há um longo caminho a percorrer” (1Rs 19,4). Vamos precisar de muita força nessa trilha: melhor não nos descuidarmos da provisão do amor.

A catequese, se de fato é espaço dialogal, se quer mesmo gerar a experiência cristã de Deus, não pode se subtrair à tarefa de dialogar e de acolher a todos, inclusive os não-cristãos. Essa acolhida é exercício de amor genuinamente cristão. E tudo que é genuinamente cristão é de fator evangelizador, converte, aproxima as pessoas do Deus de Jesus Cristo.

A catequese católica durante muito tempo se empenhou em doutrinar, em burilar a fé dos que pertencem à Igreja. Ela não se preocupava com os que estavam fora do seu redil. Essas ovelhas eram preocupação da evangelização aos gentios, da missão ad gentes, como se dizia. Hoje evangelização e catequese são palavras sinônimas. Já entendemos que uma não existe sem a outra e que uma não vem depois da outra como se pensava. Já sabemos que os católicos precisam ser evangelizados, pois foram batizados mas não fizeram a experiência de encontro com o Ressuscitado. Assim, toda pessoa – cristãos e não cristãos – precisa sempre da palavra de Deus, pois ela é força que faz viver. Ir ao encontro de nossos irmãos não cristãos é um esforço que não pode esmorecer. Dialogar com eles é condição para que sejamos luz neste mundo ainda tão sombrio e sal nesta vida ainda tão insossa!


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