Em Gn 2,23, lemos: “Esta é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2,23).

O termo hebraico ‘Etsem, que literalmente significa ossos, ganhou o significado metafórico de essência. A palavra aparece no relato do Gênesis, depois da criação da mulher, quando o homem, encantado com sua companheira, suspira e diz algo mais ou menos assim: “Agora sim. Esta é diferente das outras criaturas. Esta é das minhas; osso dos meus ossos!”.

Mas por que osso dos meus ossos e não pele das minhas peles ou músculo dos meus músculos?

Vejamos! Os ossos são o que há de mais interno; são nossa estrutura, o que nos mantém de pé. São os protetores dos órgãos vitais. São aquela parte de nosso corpo que ainda permanece quando o corpo entra em decomposição.

Em Gn 29,14, lemos: “Tu és meu osso e minha carne”.

Esta frase faz parte do relato que conta sobre a fuga de Jacó por medo das perseguições de Esaú (cf. o artigo “Esaú e Jacó: elogio à esperteza e à teimosia”). Chegando nas terras de Labão seu tio, Jacó é acolhido pelos parentes. Tal foi a alegria de Labão de conhecer um dos seus que logo exclamou: “tu és meu osso!”. Labão usa essa palavra para expressar o parentesco que o ligaria a Jacó (Gn 29,14).

Em Ex 1,9, o faraó diz: “O povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte (‘atsoum) do que nós”. O povo é ‘atsoum, e o faraó fica preocupado como se sua própria existência fosse ameaçada diretamente pela essência (‘etsem) destas pessoas.

Em Nm 22,6, lemos: “Peço que venhas amaldiçoá-lo, pois é um povo mais forte (‘atsoum) que eu”. Balaque também reconhece uma força (‘atsoum) em Israel e quer pará-lo a todo custo pela maldição de Balaão (Nm 22,6).

Em Ez 37, o profeta vê um vale de ‘etsem. uma planície cheia de ossos de um exército que, pelo aspecto da descrição, estão ali faz muito tempo. Deus faz uma promessa a Jeremias: esse exército vai ficar de pé novamente, vai ressuscitar. A essência do povo que está no exílio da Babilônia vai reanimar-se: esta é a garantia do Senhor (cf, Ez 37,11-14). A imagem descrita por Ezequiel vem certamente de Nm 13–14: os guerreiros de Israel são mortos e seus ossos permanecem no vale. São ossos de um exército de rebeldes. Também rebeldes são aqueles que, tempos depois, foram parar no exílio, mas seu ‘etsem é forte, eles terão sua esperança de volta.

No Novo Testamento, o evangelista João, antes de afirmar que Jesus ressuscitou, retoma o livro dos Salmos e diz que seus ossos permaneceram intactos. “E isto aconteceu para plenificar a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado” (Jo 19,36 / Sl 34,20 [21]). João quer garantir que a essência de Jesus – o Filho de Deus – não está em risco; sua vida está garantida, pois seus ossos estão inteiros. Com esta expressão João quer também indicar que Jesus é tamim, ou seja, o animal da oferta (Ex 12,46), assim como o justo que completou sua jornada (dérek tamim). João quer usar o temo ossos para falar sobre a ressurreição e dizer que Jesus é tamim (completo, íntegro).

Bom, pelas citações acima percebemos que osso na bíblia significa a essência da pessoa, sua integridade, sua completude. Podemos concluir que, ao colocar na boca do primeiro homem a expressão “osso dos meus ossos” para falar da mulher, o escritor sagrado está garantindo que homem e mulher tem a mesma essência, a mesma força, a mesma condição de vida, a mesma dignidade.


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