Os magos do oriente viram no véu noturno a estrela anunciata,
mas não eram magos, e não vinham eles do oriente:
uma delas era travesti, o outro, um transexual,
e a terceira, prostituta.
Cada qual em seu oriente marginal, viram a estrela
que deixava um arco de cores na órbita cósmica.
E reconheceram no céu a redenção
que não encontraram nos templos e arranha-céus da cidade.
Enquanto seguiam a estrela, n’outra parte da cidade
completava-se o tempo para a Mulher e seu esposo.
Não encontraram lugar para a sua indigência.
Havia, porém, nas proximidades, um abrigo
de pessoas provadas no fogo da intolerância e da violência,
expulsas da segurança familiar e da consolação religiosa:
Excomungados. Bruxas. Aberrações. Transgêneros.
Estando abertas as portas, entraram Maria e José.
A Criança ali nasceu.
E todxs ficaram encantadxs,
suas faces resplandeciam como anjos sem sexo que descobriram o amor.
Nesse momento, entraram os magos – ou divas – que seguiam a estrela anunciata.
O transexual foi o primeiro a adentrar o abrigo.
Estendeu a mão para o céu, como se apontasse a estrela
e recolheu dela a cauda arco-íris que se tornou uma manta para cobrir a Criança.
Em seguida, a prostituta acolheu Deus em seus braços, comovida, e o amamentou.
Por fim, chegara a travesti,
carregava a sua frente uma carriola manchada com o sangue dos inocentes,
e repousou a criança no berço improvisado que trouxera.
Antes de dormir, vendo diante de si tantos olhares amorosos, aquele Deus encarnado, aquela frágil criança de muitos pais e mães, sorriu seu mais gostoso sorriso de bebê,
e todas e todos louvaram a Deus às gargalhadas que se misturavam às lágrimas da compaixão.


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