O encontro de catequese é um espaço dialogal pois ela é uma pequena amostra da comunidade cristã, cuja vocação é dialogal desde o princípio de sua existência. Nos Atos dos Apóstolos, vemos cristãos de origem judaica assim como outros advindos do mundo dos gentios. São realidades díspares, modos diferentes de expressar a fé, costumes e tradições não uniformes… Mas, no interior da comunidade eclesial, muito além dos ritos e das práticas religiosas está Aquele que é o motivo da comunhão e da unidade: o Ressuscitado. Então, mesmo com todas as divergências possíveis – circuncidar os gentios ou não, comer carne imolada aos ídolos ou não, aceitar todo tipo de união matrimonial ou não, etc. –, os cristãos mantiveram a unidade em nome da fé. Souberam distinguir o que é a fé e o que é sua expressão, ou seja, a religiosidade ou as práticas religiosas que as religiões cultivam como modo de expressar a fé.

A religiosidade está muito vinculada à cultura do povo. Cada povo se entende de um modo e, por isso, expressa sua fé de uma maneira muito própria, com expressões coerentes com suas tradições, com seu acervo de riquezas espirituais e seu imaginário religioso… Os índios da Amazônia se expressam com cores da mata, cantos e ritos indígenas que lembram a vida da terra, dos pássaros e dos animais; um povo de origem africana se expressa demonstrando seu calor, tocando instrumentos de percussão e dançando alegremente para aliviar sua dor; e os europeus fazem-no de modo próprio,  silencioso e ritual, conforme a formalidade de sua terra. Ora, a religiosidade e a fé não são a mesma coisa. A religiosidade é a expressão da fé, dentro dos contornos de uma religião, mas não é fé nem pode ser confundida com ela.

Na caminhada da fé, corremos o risco de nos desentender e brigar por causa da religiosidade. Podemos nos apegar tanto a certos modos de expressar a fé, que acabamos desprezando o que a fé tem de mais valoroso: o amor e a comunhão. Não raras vezes, fomos testemunhas de brigas homéricas por causa de expressões diferentes da fé. E ainda hoje isso acontece. Alguns querem nos impor um modo de pensar, de agir, de rezar, de celebrar, de verbalizar a fé, esquecendo que toda tematização da fé é provisória, precária e sujeita à hermenêutica. Querem que a fé cristã volte a ser um bloco monolítico como no modelo da cristandade. Em tempos de pluralismo e secularização, não é mais que ingenuidade e arrogância essa pretensão. No interior da comunidade eclesial católica, o exercício do diálogo anda bem esquecido. Precisamos retomá-lo como uma tarefa cristã, pois ele gera a unidade. A unidade vem do respeito e do amor presente na diversidade e não da imposição e da uniformização das expressões religiosas. Desejamos que a catequese seja sempre um espaço dialogal, dando a todos a chance se expressar, inclusive de manifestar seu desacordo em relação a alguns ensinos tradicionais da Igreja! Vale mais um cristão autêntico, que se posiciona e dá trabalho por sua clareza de posição, que um cristão-vaquinha-de-presépio que só enfeita os altares das nossas igrejas.


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