o carnaval me descortina.
a festa da carne tira de mim
o pesado manto da dúvida.
e me revela os tantos que sou
que me perco na multidão a sambar.
os inúmeros eus formando cortejos
de contento e pesar,
mostrando-me o que sou,
o que tenho sido
e o que tenho sonhado e quisto.
quando as cinzas da quarta
me ungirem a fronte,
me resignarei silente
e recomeçarei a me juntar,
catando cada eu e pondo em um só lugar,
dando-me a forma que os olhos-espelhos
de mim esperam revelar,
mas no fundo um milhão de vozes ainda gritarão,
esperando a próxima vez
que poderão se libertar
e dançar tudo que sou e serei
sem de mim ninguém nada esperar.


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