No tempo de Jesus, sua postura dialogal causou escândalos a muitos, especialmente àqueles que haviam colocado suas vidas nos moldes estreitos das instituições religiosas. Toda vez que Jesus entrava em relação com uma pessoa considerada diferente, que interagia com alguém fora dos padrões religiosos do judaísmo, que lançava olhar benevolente e compassivo para outras expressões de fé, ele recebia críticas e era reprendido pelos experts da fé judaica. Não são poucos os textos que mostram fariseus e outros sabichões da religião recriminando o Homem de Nazaré por compreender as mazelas humanas e dialogar com aqueles que viviam sufocados pelo discurso religioso.

O evangelista Lucas mostra isso claramente no relato da mulher pecadora que lavou os pés de Jesus com lágrimas e ungiu-os com seu perfume (cf. Lc 7,37-50). Simão, o fariseu impecável quanto à Lei, não tolera a tolerância de Jesus. Simão, o conhecedor das prescrições da Lei, não admite que Jesus quebre o protocolo prescrito. Acontece, porém, que, para entrarmos em diálogo com o outro, precisamos nos desinstalar da posição cômoda na qual a religião (e, por que não, a fé?) nos estabeleceram. Não há diálogo sem saída de si mesmo, das próprias convicções, das prescrições bem estabelecidas. Entrar em diálogo é justamente ultrapassar a fronteira do já conhecido para navegar no mundo desconhecido e sagrado do outro. Dialogar é conhecer o espaço existencial do outro, aquela terra santa onde só é possível pisar descalçado de nossos preconceitos. É nos desvestir de um modo de pensar e ser que nos protege, para nos aventurarmos a ficar desnudos, prontos para acolher o outro com seu modo de sentir e ver o mundo. Sem isso, não pode haver diálogo.

Se a catequese entendeu de fato que o mundo hoje é plural, diversificado, multirreferencial, não pode arrogar para si o direito à verdade. Precisa reconhecer que Deus – a verdade – se diz fora dos muros da catequese, da Igreja e até da fé cristã. O anúncio do evangelho não pode ficar acomodado na posição religiosa dos tempos da cristandade, quando a Igreja não cogitava a possibilidade de outra expressão religiosa também ser portadora de verdade. E não é só um problema de profissão de fé, de dogmas e verdades no campo religioso. Em nossa sociedade complexa e multirreferencial, o diálogo é quesito para a fé cristã continuar crível: diálogo com outras expressões de fé, diálogo com as ciências, com os grupos minoritários, com outras explicações e compreensões da vida e do mundo. Sem isso, a fé cristã será apenas um punhado de “lengalengas” que não fazem sentido algum para os nossos contemporâneos. Teremos transformado o evangelho – palavra que faz viver – em uma porção de blá-blá-blá ininteligíveis para os homens e as mulheres de hoje. E essa perda é irreparável!


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