O diálogo é uma troca; é um intercâmbio não de informações ou de notícias, mas de experiências de vida. No diálogo a gente não oferece palavras, notícias, dados ou conhecimentos; a gente se oferece como dom e acolhe o outro como dom também. Seria muita pretensão nossa – aliás, pretensão nada evangélica – achar que nós cristãos estamos plenos e que a oferta do diferente não nos interessa. Um seguidor de Jesus deve saber que o Mestre de Nazaré estava sempre aprendendo. Não poucas vezes os evangelistas nos noticiam que Jesus “crescia em sabedoria e graça” (cf. Lc 2,52), que mudava de opinião quando encontrava alguém capaz de interpelá-lo (cf. Mc 7,24-30).

A fé cristã é uma preciosidade, já afirmamos várias vezes. Ela é uma oferta de sentido que tem respondido aos anseios de milhões de pessoas há dois mil anos. Mas o fato de ela ser uma oferta de sentido que nos plenifica não significa que ela se baste. Ao contrário, é exatamente por sua abertura, por sua maleabilidade, por sua capacidade de adaptação à história, que a fé cristã responde aos nossos anseios mais atuais. Ela não é um conjunto de normas ou um bloco fechado de prescrições que não se amolde ao tempo presente. Foi interagindo com as culturas que a fé cristã mostrou sua força. No começo, precisou dialogar com o judaísmo; depois precisou ir ao encontro dos gentios e da cultura grega. Ao longo dos anos, atravessou fronteiras, andou sobre águas oceânicas até chegar aos confins da terra, em continentes distantes, fazendo-se presença nas culturas mais diversas e aprendendo com elas. Não é de hoje que a fé cristã dialoga, aprende com o outro, acolhe o diferente. E, quando não o fez, os resultados foram funestos: inquisição e guerras santas (que, de santa, nunca tiveram nada a não ser o nome para camuflar interesses escusos).

 Entrar em diálogo com o outro é acolhê-lo como dom. A fé cristã é bela, mas tem muito a aprender. A oferta generosa do outro não deve ser descartada, desprezada ou diminuída. Ao longo da história, aprendemos a ser mais humanos com a humanidade; aprendemos a ser mais cristãos com os não-cristãos; reconhecemos nossos erros e limites na crítica fundamentada de muitos que não professam a fé cristã. Nós cristãos devemos estar sempre de mãos estendidas, em atitude de generosa acolhida, para receber o que a humanidade inteira compartilha como sabedoria. Não fomos nós quem inventamos o bem. Nós não somos os únicos capazes de amar. Não é interesse só dos cristãos que o mundo seja melhor e mais fraterno. Por exemplo, não foi a Igreja quem descobriu os direitos humanos ou falou de ecologia pela primeira vez. Não foi a fé cristã quem primeiro lutou no Brasil pela libertação dos escravos. Não fomos nós os cristãos quem empreendemos a causa dos operários em luta de direitos trabalhistas. Não! Nós reconhecemos esses valores na sociedade, no mundo, em outros grupos e agremiações, inclusive religiosas e, percebendo que eram valores compatíveis com o evangelho, nós os abraçamos como nossa causa também, pois tudo que é verdadeiramente humano é divino. A fé cristã não se cansa de aprender. Se hoje a Igreja tem belas encíclicas sobre os direitos humanos (Doutrina Social da Igreja), foi porque assumiu como sua a luta de outros grupos e pessoas que nem são católicos ou cristãos. Se hoje o papa Francisco escreve a Laudato Si foi porque muitos não cristãos empreenderam a causa da ecologia antes dele. É bom permanecer sempre com as mãos estendidas, não só para se ofertar como dom ao outro, mas para humildemente recebê-lo como dom de Deus.


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