Quando falamos em dialogar com o mundo, com as religiões, com as ciências etc., alguns mais afeitos à tradição católica logo reclamam que estamos relativizando a verdade. E nos acusam de hereges, pois entendem que a Igreja é a depositária da verdade, identificada como um conjunto de doutrinas, dogmas e preceitos morais. Nada disso! Bem ao contrário do que pode parecer aos olhos dos desavisados, o diálogo da fé cristã com o mundo é condição para que ela mostre toda sua verdade.

Vamos tomar um exemplo dos Atos dos Apóstolos. Quando a fé cristã começou a sair dos limites estreitos do judaísmo, não faltou quem reclamasse. Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, homem do seu tempo e aberto ao mundo helênico, resolveu dialogar e escutar aqueles que não viviam segundo sua compreensão religiosa. Decidiu correr o risco de ouvir os gentios, acolher suas reivindicações quanto às exigências das prescrições judaicas, compreender suas razões para não aderir à fé e suas queixas do peso sobre eles depositado. Foi preciso coragem para dialogar, para romper com o estabelecido (a circuncisão) e mostrar para seus companheiros de caminhada que a fé cristã não tem nada a perder quando acolhe e escuta o outro. Rompendo com a obrigatoriedade da circuncisão, Lucas dá um passo em direção ao mundo dos estrangeiros; ele sinaliza a boa vontade da comunidade cristã para dialogar, para acolher o diferente, sem medo de perder sua identidade. O que a comunidade cristã perdeu com o abandono das prescrições judaicas foi bem menos do que aquilo que ela pôde ofertar: a fé em Cristo, a experiência da solidariedade e da comunhão a partir do Cristo ressuscitado.

Nesse mundo plural e tão cheio de ofertas religiosas, a catequese tem algo a oferecer. Algo precioso e único: sua fé no Ressuscitado e sua experiência de caminhar com ele. A partir do mergulho no mistério pascal, o cristão vê o mundo de outra forma, equaciona os problemas com outras medidas e parâmetros, compreende as vicissitudes da vida a partir de outro referencial. É o evangelho mostrando toda sua força de fazer viver. Isso não é pouco! Ao contrário, é o que temos de melhor para ofertar ao mundo. A preciosidade da fé cristã não fica diminuída quando a Igreja é capaz de acolher o diferente e entender que o cristianismo não é a única possibilidade de sentido nesse mundo plural. Se fosse assim, nossa fé teria muito pouco a dar. Ela teria a fragilidade de um cristal que, mal esbarrou num limite, mostra suas rachaduras. Não! A fé cristã é uma rocha firme sobre a qual construímos nossa existência. Podem vir tempestades, furacões, enchentes, ventos fortes, e ela estará ali sempre a nos sustentar nas nossas fragilidades. A fé cristã, em meio a esse mundo em busca de sentido, tem toda chance de mostrar sua potencialidade. Ela é preciosa e faz viver. Que ninguém se sinta ameaçado pelo diálogo, se de fato sua fé sustenta o edifício de sua vida! Mas se sua fé está só escorando, com seus adereços e prescrições, as ruínas de uma existência já toda comprometida, aí sim é preciso ter medo. Não do diálogo certamente, mas da fragilidade dos alicerces sobre os quais a vida foi construída.


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