O que Berengário ignorava era que, na antiguidade cristã, símbolo era um conceito forte, em nada sinônimo de ‘representação’, como ainda hoje costuma-se pensar, infelizmente. (Unsplash/ Jacob Bentzinger)

Grande parte das confusões atuais na compreensão do Santíssimo Sacramento
vieram das controvérsia de Berengário

A primeira coisa que urge destacar, aqui, é que Jesus se deu no pão e no vinho para ser manducado, comido. O contexto da instituição da Eucaristia foi o de uma ceia. Chama-se, Eucaristia, aliás, justamente por aquilo que Jesus faz, reunido com seus discípulos e discípulas: “dá graças” sobre o pão e o vinho. E mais: insiste para que os discípulos continuassem a fazer aquilo, em memória dele. Na Primeira Carta aos Coríntios (11,23-26), Paulo nos oferece o mais antigo relato neotestamentário da instituição da Ceia do Senhor e, também os evangelhos sinópticos, conservaram essa tradição.

 “Tomai e comei”, “tomai e bebei” foi o que Jesus disse a seus discípulos naquela última ceia, relatam-nos os três primeiros evangelhos (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20). A manducação do pão e do vinho sobre os quais foi dado graças, abençoados, é o gesto simbólico mais expressivo de nossa união com o Senhor Jesus, morto-ressuscitado: trata-se do gesto simbólico-existencial em que nossa união vital, pelo sangue da nova Aliança, é manifestada. E essa comunhão é no único pão e no único cálice, o que faz com que nossa união com o Senhor nos una também aos irmãos e irmãs.

Comemos e bebemos, no rico sentido do que significa fazer refeição, do Corpo e do Sangue do Senhor, no pão e no vinho eucaristizados, a fim de que nos tornemos seu Corpo. Desde mais ou menos o segundo milênio, costuma-se chamar a comunidade dos comungantes de “Corpo Místico de Cristo”. Mas nem sempre foi assim: no período patrístico, sobretudo, o pão e o vinho eucaristizados é que eram chamados de Corpo Místico; e a comunidade dos comungantes de “Corpo Real”. A alternância do adjetivo “real”, para ser aplicado às espécies consagradas, no lugar de “místico”, deu-se por uma questão pastoral. O que nos leva às discussões eucarísticas surgidas a partir dos séculos 11 e 12.

Tudo começou com um teólogo francês, conhecido como Berengário de Tours, que passou a negar que o pão e o vinho eucaristizados fossem, de fato, Corpo e Sangue de Cristo. Ele recusava, pois, a concepção de transubstanciação (sobre a contextualização desse conceito falamos em nosso artigo anterior). Para corroborar seu argumento, Berengário recorreu a uma antiga catequese de Santo Ambrósio, lá do século 4, no qual o bispo de Milão dizia que o pão e o vinho eucarísticos eram símbolo de Cristo.

O que Berengário ignorava era que, na antiguidade cristã, símbolo era um conceito forte, em nada sinônimo de “representação”, como ainda hoje costuma-se pensar, infelizmente. Símbolo é uma palavra que, teologicamente, perfeitamente se equipara a sacramento. Santo Ambrósio, portanto, não negava que o pão e o vinho eucaristizados fossem, sacramentalmente de fato, Corpo e Sangue de Cristo: ao contrário, ele reafirmava isso, colocando as espécies eucarísticas em seu mais genuíno contexto.

A questão levantada por Berengário se espalhou como fogo em pólvora. E, muito rapidamente, os fiéis começaram a duvidar da presença de Cristo na Eucaristia. Enquanto nas universidades essa controvérsia ia ganhando cada vez mais discussões, na vida eclesial algumas práticas pastorais começaram a surgir, a fim de reanimar a fé das pessoas que havia sido abalada por conta dessas discussões. A prática da adoração ao Santíssimo Sacramento nasce daí: até então, o único motivo para se guardar a reserva simbólica, era para a comunhão dos enfermos; sacrários ornados com ouro passam a ser costumeiros, como forma de mostrar a dignidade do que guardam; a festa de Corpus Christi também remonta a esse período, quando a procissão com o Santíssimo Sacramento visava sensibilizar a piedade dos fiéis; etc.

A partir de então, o adjetivo “real” passa a ser terminantemente usado para compor a compreensão da presença de Cristo na Eucaristia. Não que antes a presença de Cristo não fosse considerada, mas há uma mudança de tonalidade na maneira como se passa a compreender. Se, por um lado, houve o ganho de a fé ter sido bem salvaguardada; por outro lado, a compreensão do “místico”, agora atribuído à Igreja, passou a ser menos valorizado. O grande risco foi o da subjetivação da comunhão eucarística: deslocou-se a compreensão eminentemente comunitária da eucaristia, para o valor do que ela pode agregar na vida subjetiva do sujeito comungante, sem mais.

E esse subjetivismo temos visto largamente na piedade eclesial, inclusive muito incentivada por alguns clérigos. Como temos alertado já há algumas semanas, ao longo dos nossos artigos neste espaço, muitas práticas com a intenção de serem piedosas acabam por se tornarem idolátricas, mesmo quando elas se destinem ao culto do Deus verdadeiro. Basta que liguemos nossas TVs em alguns canais católicos, para observarmos os exageros que se cometem, no culto à eucaristia, que destoam em muito da saudável adoração ao Santíssimo Sacramento. Muito diferente, no entanto, são os atuais cultos e bênçãos eucarísticas realizados pelo Papa Francisco, neste contexto de pandemia: em nada ferem o legítimo lugar da piedade: muitos clérigos deveriam, pois, com o Papa aprender.

A adoração ao Santíssimo Sacramento, também chamada de Culto Eucarístico fora da Missa (prática que há um ritual próprio para que seja bem celebrada), é uma riqueza da vida da Igreja. Porém, ela não tem fim em si mesma: ela aponta para a Celebração Eucarística. Não é demais repetir: Jesus Cristo se deu no pão e no vinho para ser alimento que une os fiéis a si. Toda prática de piedade de adoração às espécies eucarísticas tem um sentido pedagógico: tornar fecundo, nos fiéis, o desejo de se aproximarem da Eucaristia, não apenas do ato em si de comungar, mas de tudo o que significa estar reunidos ao redor das duas mesas, a da Palavra e da Eucaristia, em comunhão com o Cristo Total, cabeça e membros.

A educação para a fé, em nossa atualidade, tem muito a aprender com a pedagogia dos antigos Padres da Igreja, entre os quais Santo Ambrósio, a partir de uma linguagem que seja adequada para nossos tempos. Tudo isso, a fim de que verdadeiramente sejamos mais fiéis à verdadeira Tradição, do que simplesmente piedosos bem-intencionados que pouco sabem da própria fé que professam e que, por isso, subjetivam demais a religiosidade. O caminho é longo, até o ponto em que, verdadeiramente, reconheceremos o quão sublime é aquele Sacramento, que nos incorpora à vida de Jesus, com todas as consequências evangélicas que isso abarca. Para isso, urge uma catequese com a ousadia do Espírito, que nos ajude a superar muitas práticas de idolatria, que acabam por fetichizar o Corpo e Sangue do Senhor.


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