No grande areópago do mundo, a fé cristã não tem mais exclusividade. Não é mais a única voz proferida dos púlpitos, nem a grande reguladora do ethos da sociedade pós-moderna. Vozes diversas ressoam ao mesmo tempo, cada qual anunciando seus oráculos, mostrando seus caminhos, fazendo seus apelos ao coração humano. Diante de tanta diversidade, como transmitir a fé cristã? Faz sentido ainda continuar anunciando o evangelho de Jesus Cristo se toda religião ou profissão de fé deve ser reconhecida na sua legitimidade? O que fazer com o mandato do Nazareno, assimilado pelas comunidades cristãs, “ide e anunciai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15)? Para transmitir a fé cristã, não seria necessário condenar as outras expressões de fé que não reconhecem Jesus como Senhor e salvador do mundo?

Neste mundo plural e diversificado, toda pretensão de possuir a verdade – mesmo em nome da fé – é absurda. Conviver com a diversidade e aceitá-la como um dom (e não como uma ameaça) é o primeiro caminho para que a fé cristã seja reconhecida como legítima. Afinal, a verdade não é algo que possuímos. Ela nos escapa, pois é bem maior que nós, maior que nossas elucubrações teológicas, que nossa capacidade de dar sentido e de explicar os mistérios da vida. Deus é mistério e se nos revela na história, nas pequenas coisas, nas palavras humanas ditas desde dentro, nos pequenos gestos de amor, como nos ensinou Jesus de Nazaré. Toda tentativa de açambarcar a verdade é reducionista e a tranforma em uma mentira. Nós não possuímos a verdade; apenas nos aproximamos dela. E, a cada passo dado em sua direção, ela avança mais à frente, conservando-se sempre como mistério. Deus, a verdade, não se deixa possuir por ninguém, nem por uma religião, nem por um credo, nem por qualquer prática piedosa. Está sempre mais além dos nossos olhos, nos ensinando que a fé é devir, é vir-a-ser, é uma eterna iniciante.

Se a fé cristã quer continuar crível hoje, se quer ter pertinência para os homens e as mulheres de nosso tempo, vai precisar reaprender a humildade do Nazareno. Vai precisar reaprender a lição da tolerância e do diálogo. Vai precisar se tornar companheira das outras expressões de fé em vez de sua inimiga ou concorrente. Não há espaço no mundo contemporâneo para uma profissão de fé que arroga para si o domínio da verdade, nem para quem não sabe reconhecer o belo e o bom no quintal do vizinho. A catequese cristã católica – se quer mesmo cumprir o mandato de Jesus “ide e anunciai” – precisa se abrir para acolher o diferente e se revestir de humildade admitindo que a fé cristã não tem resposta para tudo. Vamos precisar de coragem audaciosa, como disse o papa Francisco, para fazer uma pastoral em saída, acolhendo cada pessoa com suas necessidades e suas ofertas de sentido. Vamos precisar de leveza e desapego para repensar os dogmas e as formulações doutrinárias a partir do nosso tempo. Vamos precisar de abertura e de bondade sem fim para redizer a ética e a moral cristãs a partir de novos parâmetros. Vamos precisar reconhecer a pluralidade não só da sociedade, mas a pluralidade interna do cristianismo – e por que não do catolicismo? A transmissão da fé hoje não se dá mais de forma automática como outrora, quando a recebíamos de nossos antepassados, como uma herança passada de pai para filho. A transmissão da fé hoje se dá no testemunho corajoso e autêntico de cristãos que – no meio de um mundo plural e com milhões de ofertas de sentido – continuam a professar que o Nazareno vive e que seu evangelho é palavra que faz viver.


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