Neste tempo complexo, chamado por muitos de pós-modernidade, surgem – qual rebento de oliveira – numerosas propostas de dar sentido à vida. A grande narrativa da fé cristã não tem mais hegemonia. Ramificações de todo tipo brotam em torno à grande tradição cristã: católicos, protestantes, pentecostais, neopentecostais; uns grupos avançados, outros conservadores; uns rigoristas quanto à moral, outros laxos e relativistas; uns reencarnacionistas, outros panteístas…

Em meio aos cristãos, não é diferente. A diversidade é tão grande que chega a assustar os mais tímidos. Além das diversas denominações cristãs, ainda encontramos tradições vindas de longe – como as de origem oriental, por exemplo; outras brotadas de pequenos grupos que redescobrem suas tradições ancestrais (africanas, indígenas, ribeirinhas, europeias etc.); e ainda outras que nascem de grupos urbanos motivadas por afinidades comuns (por exemplo: não comer carne, amar jogos eletrônicos ou fazer esportes, defender os animais ou a natureza, etc.) São tantas e tão diferentes as agremiações que, na grande praça da fé, quem busca um sentido para sua vida descobre um leque de possibilidades para se reinventar.

Em meio a tanta diversidade, alguns cristãos se sentem meio perdidos, desbussolados, sem saber que rumo tomar. Identificam a pluralidade como malévola, destruidora da unidade e querem voltar à grande disciplina de antes. Rejeitam as identidades religiosas, seus ethos, suas liturgias, chegando ao absurdo de rotulá-las de demoníacas ou de contrárias a Deus. Esses cristãos ficaram tão afeitos ao bloco hegemônico da fé que tudo que não coaduna com a manutenção desse modo de crer parece mau e pernicioso. Não raro, encontramos catequistas combatendo as religiões de origem afro ou os grupos urbanos de novas tendências espirituais. Dizem que tatuagem não é de Deus, que vestir-se de preto é do diabo, que mãe-de-santo é pessoa possessa, que mediunidade kardecista é manifestação dos demônios… E aferram-se num combate inútil aos grupos diferentes, condenando-os ao fogo do inferno e assumindo a salvação de Deus como uma exclusividade de seu grupo.

Nada mais tolo e inútil na catequese. Uma verdadeira perda de tempo, além de ser um desrespeito brutal e uma arrogância religiosa sem par! A catequese que se envereda por esse caminho equivoca-se teologicamente e não segue a práxis do Nazareno, sempre tão tolerante com todos e respeitoso com as diversas culturas. Quem não se lembra de Jesus dialogando com a Samaritana (cf. Jo 4) ou repreendendo o discípulo João quando este exigia exclusividade no exercício de expulsar os demônios (Lc 9,49-50)? Quem não se lembra do elogio que mereceu a cananeia, aquela mulher estrangeira cuja fé pareceu a Jesus muito maior do que a de qualquer israelita (cf. Mc 7,24-29)? Não faltam nos Evangelhos exemplos de solidariedade e acolhida da parte de Jesus em relação ao diferente. Assim também não faltam ocasiões em que ele critica a religião oficial de Israel e dá crédito aos desacreditados da religião. Seria bom se a catequese – e todo cristianismo – seguisse os passos do Mestre de Nazaré nos caminhos da tolerância, do respeito e do diálogo.


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