Já se foi o tempo em que a sociedade assentava suas bases numa tradição capaz de gerar um ethos, um estilo de vida, um modo de ser. A sociedade tradicional, cuja identidade se encontrava num conjunto de valores e costumes advindos do passado, desfez-se como bolha de sabão, sobrando apenas algumas pequeninas amostras em grupos neoconservadores ou em rincões bem distantes onde a globalização ainda não achou caminho para penetrar. A fé cristã, tão afeita ao tesouro da tradição, com o fim desse modelo de sociedade, viu interrompida sua cadeia de transmissão e precisou se reinventar para continuar anunciando o evangelho de Jesus Cristo.

Surgiu uma sociedade mais dinâmica, evolutiva, com olhares voltados para um futuro cheio de promessas. Com alicerces construídos sobre a razão, a sociedade moderna oferecia como garantias de um mundo melhor a ciência, a técnica e o progresso. A utopia de uma Terra sem males ganhou vulto, passando a impulsionar a sociedade para o amanhã. E não demorou para a fé cristã ressurgir vigorosa, pois o canteiro da esperança era terreno fecundo para as promessas do Reino. Mas o sonho moderno encontrou seu desencanto nas guerras mundiais, nos males perpetuados na história, na exploração do grande sobre os desvalidos. O futuro prenhe de possibilidades que a modernidade idealizou abortou antes de vir à luz o filho prometido. Sobraram escombros do edifício da modernidade e alguma esperança no coração dos últimos moicanos que lutaram bravamente até o fim, defendendo suas convicções humanistas. A fé cristã, tão afeita à esperança futura, assistiu ao desmoronamento de seu novo ninho e, agora, se vê na obrigação de se reinventar.

Vemos hoje ser gestada uma sociedade complexa e plural, com urgência de sentido para o tempo presente. Nada de buscar o sentido na tradição do passado, nem de projetar o sentido num futuro promissor. É preciso ser feliz agora e viver uma vida com sentido no hoje da história. A hegemonia da grande narrativa cristã foi obrigada a ceder espaço para a diversidade e a multiplicidade de pequenas narrativas, inclusive religiosas, cada qual tentando explicar a vida e o mundo a seu modo, cada qual gerando uma ética, um modo próprio de se comportar e de buscar sentido para a vida.

Uma sociedade plural se implantou e a fé cristã – sempre encarnada na história – procura na atualidade novos modos de se redizer, de continuar comunicando a experiência cristã de Deus, dentro da nova gramática humana. Neste mundo de múltiplas ofertas de sentido, a fé cristã – se quer continuar crível – precisa mostrar que é força para viver, que o evangelho de Jesus oferece um estilo de vida bom e confiável, capaz de nos arrancar da mesmice de uma vida fútil. A fé cristã precisa mostrar-se como preciosa, como capaz de comunicar vida para o homem e a mulher contemporâneos, capacitando-os para enfrentar os desafios do tempo presente. Na linguagem do teólogo espanhol, José Antônio Pagola, é preciso mostrar ao mundo que é bom crer em Jesus. Será que a catequese está pronta para esse desafio?


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