Fazer um processo catequético independente dos sacramentos. Será isso possível? Estamos tão acostumados a esse esquema da catequese sacramental e nos afeiçoamos a ele. Parece-nos impossível imaginar uma catequese que não seja para preparar para a recepção dos sacramentos.

A catequese do modelo curso para primeira eucaristia ou crisma funcionava mais ou menos bem em tempos de hegemonia da Igreja, em que, soberana, sua doutrina se impunha na sociedade. Não havia uma preocupação de evangelizar para que a pessoa aderisse à fé cristã. A fé cristã era herança que os filhos recebiam dos pais e da sociedade, transmitida por “osmose social”. Bastava apenas fazer um curso preparatório para os sacramentos, cuja intenção era aprofundar a doutrina professada, ensinar umas preces da tradição católica, os mandamentos e algo sobre as principais festas litúrgicas. Mas não havia uma preocupação propriamente evangelizadora.

Como já dissemos, no começo da caminhada da Igreja não era assim. Em tempos de diversidade religiosa (os vários cultos aos deuses), a fé cristã não era herança. Ela se apresentava como uma novidade exigente, que podia custar a própria vida do crente, entregue no martírio. O candidato ao catecumenato não buscava um sacramento; buscava a vida cristã, a vida nova que só o Ressuscitado podia dar. Essa vida nova era experimentada no itinerário catequético e confirmada na recepção dos sacramentos da iniciação cristã. Os sacramentos não eram um fim em si mesmo, mas o sinal do seguimento, da adesão a Jesus e a seu Reino.

Quando o Evangelho de Mateus diz: “ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que que vos tenho ensinado”, a comunidade mateana mostra que entendeu bem a sequência evangelizadora. Primeiro ir atrás da ovelha perdida; depois fazer discípulos; só depois batizar. O batismo aparece como sinal da adesão, da entrada no discipulado. E, por fim, ensinar. Ou seja, o processo atual de catequese que ensina a fé, dá os sacramentos e depois cobra adesão está equivocado; tem um problema de fundo que o compromete. A catequese ou evangelização (os dois termos estão sendo usados como sinônimos) tem estatuto próprio. Ela não depende da recepção dos sacramentos para acontecer. Bom seria se as paróquias acolhessem todos os que desejam a fé – depois de boa motivação com o “ide”, é claro – e se empenhasse em evangelizá-los sem se preocupar com o sacramento que receberam ou não. Ela evangeliza. Só isso! Em dado momento do itinerário da fé, quem não tiver primeira comunhão vai fazê-la. Quem já tem vai fazer a segunda, a terceira, a enésima comunhão, renovando seu compromisso de discipulado com Jesus. O mesmo seja dito da crisma. “Funciona?”, questionam alguns.  Claro que sim. Há paróquias que acreditaram nesse projeto e já estão a passos acelerados fazendo um belo trabalho evangelizador. Como disse o papa Francisco, não custa arriscar. Melhor arriscar e dar errado que ficarmos presos a estruturas falidas, que já não funcionam mais. Eis um desafio!


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