O tilintar dos talheres se interrompeu quando o filho – um jovem com os cabelos decentemente deitados para a direita, tão cuidadosamente arrumados e lambidos, com um nariz comprido, com os lábios finos e as maçãs da face mais avermelhadas que o sangue – resolveu abrir-se com os pais.

Os pais olharam firmes para o filho quando ele começou;

“Gostaria de dizer-lhes algo muito sério…”

Num átimo, a mãe viu todas as louças quebradas no chão e o pai viu o carro incendiado. As imagens automáticas quase saltaram da mente do casal que sentiu certo apavoramento com a solenidade do filho.

“Eu não sou como os outros rapazes”

O pai já esfregou a mão no rosto. A mãe desesperou, engasgou com a própria saliva e ameaçou um desmaio. Mas fingiram compostura.

“Eu gosto de…”

A mãe surtou. Por trás de suas retinas era como se ela estivesse sem casa, sem família, sem ar; morta. Gosta do quê? – pensou. Gosta do quê?

“Eu gosto de Kiwi” – terminou ele.

Foi o fim.

Foi decepcionante.

O pai se sentia desolado. A mãe destampou o choro mais doído que sabia chorar. Entre lágrimas e lamúrias, quase como se tivessem recebido a notícia de uma tragédia – e era assim que entediam – se perguntava soluçando onde tinham errado.

“Eu não terei um filho que gosta de kiwis” – retrucou o pai dando lugar à raiva. “Não foi para isso que lhe criei. Meu filho tem que gostar de tangerinas, de uvas, de peras. Eu não admito. Eu prefiro um filho morto, a um filho que goste de kiwis”.

“Mas pai…” – tentou o filho. A mãe, levantando-se, foi até a pia derramar suas lágrimas no ralo. Voltou-se para o menino procurando manter a sanidade:

“Tem certeza, filho? Às vezes é só uma fase, meu bem” – disse virando-se para o marido.

“O que vou dizer para os meus amigos, Joana. Como eu vou explicar que nosso filho gosta de Kiwi pro resto da família, Joana… Eu prefiro um filho morto a um filho que gosta de kiwi, Joana. A culpa disso é sua Joana.”

“Todo mundo já sabe, pai…” – disse o menino começando a chorar.

A mãe destampou a chorar de novo…

O menino se levantou, subiu para o quarto. Fez as malas, derramou algumas lágrimas nas meias, ergueu-se resoluto e desceu as escadas. Os pais, agora mais calmos, num canto da sala, o olharam e se entreolharam. Fizeram silêncio. Ele saiu e eles não o impediram. Não fizeram nada. Preferiam a dor da casa vazia à alegria de compreender o que é ter um filho que gosta de kiwi, e não de tangerinas, uvas ou peras…

  • Fotografia de Roberto Cardoso

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