Quando chegamos ao ponto de negar a morte e o morrer, estamos nos furtando da busca do sentido de viver o tempo presente..

O termo escatologia pode ser traduzido literalmente por discurso ou doutrina sobre a coisa última. Na ciência teológica, a escatologia se dedica ao estudo das últimas realidades, isto é, em como o ser humano, a história e o mundo se encaminharão para o pleno cumprimento. Não se trata apenas de considerar o fim dessas realidades, mas de como nesse fim elas alcançarão uma plenitude de vida ou existência. Por essa razão, a escatologia cristã se desenvolveu ao redor da esperança consumada em Jesus Cristo e, no entanto, na sua ressignificação a partir dos acontecimentos pascais. Nesse sentido, o fim não é pensado na perspectiva do nada, mas no da totalidade das criaturas e do criado em Deus, significando, por isso mesmo, uma superação do tempo e do espaço tal como os conhecemos. Portanto, trata-se de pensar a morte da pessoa, o fim da história e do mundo.

No fim de semana passado nosso país registrou mais de onze mil mortes decorrentes do COVID-19. Uma catástrofe que nossa geração não sonhou viver ou presenciar. O luto se alastra pelos lares brasileiros de todas as regiões expandindo um vazio desolador deixado pela morte de pessoas reais que já não estão mais ali junto dos seus. Acompanhar a evolução da doença com sua altíssima taxa de letalidade entre nosso povo nos deixa anestesiados e nos acusa, sobremaneira, de impotência. Revela-nos nossa fragilidade e finitude. Faz-nos pensar sobre o sentido de estarmos vivos.

Esse tempo demasiadamente crítico deveria promover justamente o movimento que as outras crises que vivenciamos individual e coletivamente provocaram, a saber, a descida da superfície para a profundidade das reflexões sobre a vida e o viver. Quando somos capazes de atingir a profundidade da questão, então estamos mais aptos para encontrar as soluções que nos habilitam a retomar com nova qualidade nosso caminho. E o confronto com a morte é propício para esse deslocamento. Precisamente porque quando nos perguntamos pelo sentido da morte estamos inevitavelmente nos questionando sobre o sentido da vida. Não há como escapar dessa reflexão assim como não há uma resposta unívoca para os questionamentos e provocações que nos ocorrem nesses momentos.

Mas podemos perceber, sobretudo a partir do desenvolvimento das nossas sociedades modernas, uma tentativa de esconder a morte e a finitude que ela escancara. Por isso mesmo, esse acontecimento foi se transformando em assunto médico e hospitalar. A morte é encarada apenas como um fracasso da medicina que, apesar de poder conversar sobre o prolongamento da vida, não é capaz de impor o fim do fim que a morte representa. E mesmo diante desse confronto desconcertante, ainda nos veremos em posição de negação desse aspecto constitutivo da nossa humanidade.

Quando chegamos ao ponto de negar a morte e o morrer, estamos nos furtando da busca do sentido de viver o tempo presente. E uma vida que não busca se aprofundar faz a experiência de negação da própria realidade e vê apenas cenas descoladas da retina do vivido. Esse é o momento da cegueira ou da alienação. Precisamente é isso que está acontecendo em nossa sociedade brasileira. Quanto mais pessoas morrem infectadas nessa pandemia tanto mais aparecem pregadores negando a altíssima letalidade do vírus. Esses afirmam que os efeitos são os mesmos de uma gripezinha, que não podem fazer nada por não fazerem milagres, que não são coveiros para falar sobre o assunto ou que não para de morrer gente na humanidade. Também acabam negando a morte com afirmações que contrapõem medidas de saúde, como o distanciamento e o isolamento social, com as consequências de uma crise econômica sobre as justificativas de que muitos morrerão de fome. Nesse aspecto, também podem munir o discurso com uma linguagem médica para tratar de assuntos financeiros, entre outros.

Esses recursos empregados nos discursos não pretendem outra coisa senão normalizar aquilo que é altamente escandaloso nessa crise. E que transcende aquela reflexão escatológica provocada pelos relatos emocionados das pessoas que perderam seus entes queridos. E que transcende aquela reflexão escatológica frente às centenas de covas abertas por retroescavadeiras nos cemitérios ou as pilhas dos caixões depositados em valas comuns para sepultamento sem nenhum rito religioso ou sem as lágrimas dos vivos. E que transcende o silêncio da equipe médica que irá escolher quem irá para o respirador e quem ficará à sorte, do abandonado no leito do hospital e na extensa fila para a UTI, dos parentes sem notícias e sem esperança.

Precisamente, nossa escatologia brasileira é escandalosa porque, além de nos confrontar com a morte e com o morrer, que por si só provocam nossa reflexão sobre o nosso fim pessoal e a nossa própria vida, ela nos coloca diante do nosso fim social e humano ou da ideia fantasiosa que deles fizemos todo esse tempo. E o que aqui presenciamos é o escarro, o vômito, as fezes, o pus, a podridão do nosso tecido social engolida pelos vermes da decadência humana. Quando a negação e a indiferença dos pregadores gritam mais alto que o silêncio dos corpos sepultados em caixões lacrados, nós podemos dizer que ouvimos a pior linguagem do fim. Porque aqui estamos confrontados pela experiência do nada. Não há respostas. Não há esperança. É o aniquilamento da sociedade brasileira.

Todo esse movimento nonsense e de negação das provocações que a pandemia e suas consequências nos fazem alastra entre nós o vazio do nada e a desesperança. E nos sentimos ocos como o tronco de uma árvore que apodreceu. E esse sentimento escatológico não nos permite atingir a profundidade que poderia nos alimentar a esperança pela totalidade de uma vida plena melhor. Por essa razão, negam as milhares de mortes para esconder a profundíssima desigualdade social que nos acompanha desde os primórdios civilizatórios e que neste momento se agudiza ainda mais. Além disso, a negação dos fatos quer esconder também o que há de pior em nós, que é a indiferença radical para com nossos semelhantes, sobretudo para com os que estão doentes e os que perderam seus entes queridos. Por isso, a escatologia brasileira é tão escandalosa, precisamente porque ela é antivida, não porque se confronte com a morte e a finitude, mas por ser alheia a ela e por negar que a vida precisa ser mais plena e mais digna para todas as pessoas, tal como o legítimo desejo do Deus de Jesus Cristo.


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