Uma catequese iniciática, aquela que se caracteriza como encontro e não como aula, não dispensa a oração como atividade facilitadora da experiência cristã de Deus. Por meio da oração, o orante se disponibiliza para a escuta, para a entrega, para a sintonia com o Deus de Jesus Cristo que é sempre o Deus que se diz, que se mostra, mesmo sendo totalmente transcendente. A fé cristã trabalha com um paradoxo estranho, que faz parte de seu mistério: nosso Deus é grande, transcendente, o totalmente outro, mas se faz o menor de todos no íntimo do nosso coração e se revela a nós, apesar de ser muito maior do que tudo o que podemos conhecer.

O povo da bíblia não se cansa de relatar essa transcendência e essa presença de Deus. Deus está sempre se dando a conhecer, se comunicando aos seus. A certeza da transcendência de Deus está claríssima na bíblia. Os escritos bíblicos afirmam que seu nome é impronunciável (pois dar nome a ele seria apreendê-lo, roubar-lhe sua transcendência), que quem o vê morre (pois participaria de sua transcendência, desvelaria seu mistério), que ele habita o alto dos céus etc. A certeza de sua proximidade não é menor que a certeza de sua transcendência. De tal forma essa experiência da presença impactou o povo, que ele não cansou de descrever teofanias – manifestações divinas – tanto acontecidas no esplendor da natureza, como chuvas, raios e trovões, no Sinai, como na brisa suave e mansa em que Elias experimentou Deus na caverna. Deus é também descrito com antropormorfismos (recurso de linguagem que dá forma humana ao que não é humano: Deus, coisas, animais) para dizer que ele sente a vida como nós, reage como nós, está conosco. Ele se aborrece, fica irado, sente ciúmes, se chateia, ama e odeia, como os pobres mortais. Qualquer pessoa minimamente informada nos escritos bíblicos sabe que essas expressões são um modo de indicar a proximidade e a presença de Deus na nossa realidade. Esse Deus se digna a ouvir nosso clamor, a nos mostrar caminhos, a se fazer presente entre nós no seu Filho Jesus. E Jesus vai nos ensinar a chamá-lo de Pai, colocando nele nossa esperança, dirigindo a ele nossas preces.

Se a catequese é mesmo encontro, não só encontro com os irmãos mas encontro com esse Deus totalmente outro e totalmente próximo, logo a oração tem lugar de destaque nos encontros. Ela favorece a comunicação com Deus, a escuta de sua Palavra; por meio dela, Deus se diz no íntimo do coração, num encontro pessoal com cada catequizando.

Para rezar, na catequese, não basta saber de cor uma porção de orações. É preciso bem mais que isso. É preciso, em primeiro lugar, gerar confiança e intimidade com Deus. Quando confiamos em alguém, queremos lhe falar de nossas intimidades, queremos ouvir seus conselhos, queremos ter tempo para o diálogo com ele. O mesmo acontece com Deus. Se não confiamos nele, se não acreditamos que ele é amor, rezar para quê? Mas se nossa relação com Deus é de filial confiança, de amor terno, então a oração se apresenta a nós como uma dádiva. Rezar se torna prazeroso e bom; não para insistir com Deus e forçá-lo a fazer o que queremos, mas para nos entregar todo inteiro a ele. Buscaremos na oração não uma graça qualquer, uma graça coisificada em favores que lhe pedimos, mas a única graça que realmente vale a pena: a comunhão com ele, ele mesmo que se dá a nós em gratuidade. Ajudar os catequizandos a chegar nesse nível de oração é tarefa da catequese. Ela não pode se esquivar dessa missão, se quer de fato ter como fruto dos encontros a experiência cristã de Deus.


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