Havia um famoso conferencista, que corria mundo a fazer palestras e a dar cursos por todo canto. Já estava acostumado ao público e sabia como lidar com a plateia. Aprendera a fazer a leitura de seus ouvintes: as caras e bocas que eles faziam, a postura do corpo, o brilho nos olhos… tudo dizia o que se passava no interior de cada um. Não havia muitas surpresas, afirmava ele.

Sua teoria parecia intacta até o dia em que foi discursar numa universidade. Pra sua surpresa, assentado nas cadeiras dos ouvintes, estava um velho professor, muito sábio, de quem já ouvira falar. O bom velhinho se colocara a ouvir o conferencista como todo mundo, sem nenhuma arrogância ou ar de superioridade.

Tudo ia bem, até a hora em que o velho professor começou a se contorcer na cadeira. Tinha ares de insatisfeito, de incomodado. Remexia-se sem parar e parecia desconfortável com o que ouvia. O conferencista observava e começava a ficar inseguro com a presença do ilustre professor. Para piorar a situação, o professor começou a fazer cara de nojo, de repugnância…

Lá pelas tantas da palestra, o conferencista já não se aguentava mais diante daquele senhor. Evitava seus olhos, procurava interagir com outros ouvintes e fazia esforço hercúleo para esquecer que aquele homem estava ali. Quase terminou a conferência mais cedo, deixando sua tarefa inacabada. Não aguentava mesmo aquelas caras e bocas de insatisfeito que o velho homem fazia.

Terminada a conferencia, o palestrante percebeu que o velhinho saiu apressado, se acotovelando nos outros, na maior disparada, demonstrando evidente pressa para deixar o auditório. Incomodado com aquela cena, pensou: “Se não estava gostando, por que não saiu antes? Por que ficou com aquela cara de nojo durante toda a palestra? Seria mais delicado se tivesse saído do ambiente, pelo menos não teria me incomodado tanto!”.

Já estava certo de sua teoria, quando, ao final de tudo, depois de muitos abraços e despedidas, chegou o velho professor para cumprimentar o conferencista, dizendo-lhe: “Perdoe-me por não ter vindo antes; adorei tudo que você disse. Mesmo passando mal, não arredei o pé do auditório, tão interessante eram suas palavras. Saí assim que pude por causa de ânsias de vômito que me acometem há dias. Obrigada por suas palavras!”.

O conferencista quase caiu estarrecido no chão e repensou sua teoria. As aparências podem mesmo provocar enganos.

Por isso, melhor ficar firme na humildade, sem achar que pode sair julgando pelas aparências…


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