“Que queres que eu te faça?
… Senhor, que eu possa ver novamente!” (Mc 10,51)

“Estar com Jesus forma
para um olhar contemplativo
da história”
(Papa Francisco)

Quando eu era criança, me encantava com o meu irmão que concentrado brincava com uma folha de papel e alguns tubos de cola colorida. Na folha aberta, ele colocava várias gotas da cola colorida aleatoriamente e depois dobrava a folha ao meio apertando levemente com a mão. Ao abrir a folha surgia uma forma que fascinava pela mistura das cores e desafiava à contemplação para ver o que havia surgido naquele papel. A alegria era grande quando éramos capazes de ver um objeto ou um desenho que, para sob nosso olhar infantil, se formava misteriosamente.

Coisas de criança? Pode ser! Porém, hoje já não sou mais criança e sinto a mesma alegria quando sou capaz de ver, na vida, aquilo que Deus realiza em seu mistério de amor.

Ver é um dom que ultrapassa a simples função do órgão do sentido da visão e são muitos aqueles que não veem mais; tornaram-se cegos, incapazes de contemplar o mistério da vida e, por isso, transformaram-se em pessoas tristes que permanecem à beira do Caminho, mendicantes ou indiferentes, pois nada mais os sensibiliza.

Jesus é aquele que vê, que contempla a vida. Precisamos entrar no Caminho para aprender do Mestre a ver além. Foi Ele quem viu em Simão e André, em Tiago e João, mais que pescadores, mas colaboradores do seu reino e os chamou para o seu serviço. Viu Mateus e Zaqueu não como publicanos, mas como pessoas capazes de comunhão e sentou-se à mesa com eles. Viu, no gesto da pobre viúva que depositava duas moedinhas no tesouro do templo, não uma simples oferta, mas a doação de uma vida. Jesus vê porque ama! Ama a humanidade, ama a criação, por isso reconhece no ordinário do dia-a-dia o Reino que se realiza.

Se estivermos cegos, incapazes de ver a beleza da vida, gritemos como Bartimeu a Jesus que passa. Diante de sua pergunta “O que queres que eu te faça?”, não percamos tempo em pedir milagres ou feitos extraordinários que acabam por nos tornar ainda mais cegos; peçamos com coragem: “Senhor, que eu possa ver novamente!”. Pois não existe milagre maior do que a capacidade de ver com o coração e, assim, seguir Jesus no Caminho.


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