A ESPERANÇA COMO FONTE DE ALEGRIA, ou

“bem aventurado aquele que não se
escandalizar por causa de mim!” (Mt 11,6)

Este terceiro domingo do advento é conhecido como domingo da alegria. Chamamo-lo assim por estarmos mais próximos da celebração do Natal; a salvação está às portas e é fruto de um encontro com o Senhor. Ele não nos vem salvar apenas do pecado, mas também “da tristeza, do vazio e do isolamento” (Evangelio Gaudium, nº 1). Por isso, sua boa notícia é fonte de alegria.

O tema da alegria parece estar bem evidente na primeira leitura desse domingo, tirada do profeta Isaías (35, 1-6. 10). O profeta é um arauto da esperança em meio ao povo desanimado; ele anuncia o fim do exílio e a recondução do povo para sua terra de origem. Encontramo-nos mais uma vez com uma leitura sobre a libertação e sobre a caminhada que o povo tem de fazer, desde a terra do cativeiro até a própria terra. A matriz que se esconde nessa profecia é certamente aquela sobre a libertação da terra do Egito, experiência originária e originante para o povo de Israel, evento fundador desse povo como povo de Deus. Mas se essa é a matriz, não nos enganemos sobre a novidade dessa libertação da qual nos fala Isaías. Como que num pequeno apocalipse, o profeta promete a derrota do mal e o triunfo do bem. A salvação que vem de Deus será motivo de gozo e alegria e converterá o deserto, a terra árida, em lugar de fecundidade. Por isso, o profeta retoma as imagens proverbiais do Líbano, do Monte Carmelo e da planície de Saron, para dizer que o deserto se converterá em lugar da abundância. A metáfora é geográfica, mas, ao mesmo tempo que fala de “um fora”, está também falando do “um dentro”: o deserto do desconsolo, do desânimo e da desesperança, pois é justamente este que vai se converter em terra de abundância e fecundidade. O povo deixará para trás a tristeza e encontrará a alegria.

Para falar dessa esperança que é fonte de alegria e dessa salvação que não tarda, o profeta amplia suas imagens. As pessoas devem animar-se mutuamente, encorajar uns aos outros. A esperança se fortalece na partilha da vida e, no convívio, as pessoas fortalecem umas às outras, ainda que desde seu sentimento de vazies, podendo encontrar alimento nas próprias palavras. Ele convida a fortalecer as mãos cansadas, os joelhos fragilizados: é preciso estar pronto para construir algo novo (mãos), é preciso estar de pé para o caminho (joelhos robustecidos). Afinal, o Senhor vem, mas não nos deve encontrar desprevenidos. Sua chegada será acompanhada de sinais de que finalmente brilhou para todos a salvação, de que se derramou sobre o povo a consolação e a misericórdia de Deus. Para falar dessa misericórdia e consolo, o profeta usa imagens de transformação das realidades de exclusão: os cegos verão, os surdos ouvirão (não haverá impedimentos para experimentar o socorro desse Deus que vem). O coxo não vai apenas andar, ele irá saltar efusivamente. O mudo não irá apenas falar, ele irá cantar hinos. As imagens, aqui, marcam o excesso da graça. A vinda do Senhor devolve aos que não são nada, aos que são apenas escória, a dignidade; devolve-lhes também o corpo sensível e desejante, sobre o qual estava apenas a marca e a chancela da exclusão e da depreciação. Eles poderão voltar a ter coragem de ser.

A nossa fé cristã acredita que Jesus é o sentido pleno das profecias. Isso quer dizer que ele não cumpre a letra nem as minúcias do que disseram os profetas, mas que realiza o sentido para o qual eles apontaram. Dito de outro modo: as profecias não foram escritas tendo Jesus em mente, mas os cristãos viram em Jesus a plenitude da realização de tudo o que foi dito nas profecias. Com ele chegou, finalmente, esse tempo da salvação tão aguardado, porque em sua face manifesta-se a misericórdia do próprio Deus.

Jesus apresenta Deus como novidade, como boa-notícia, desprendendo-o dos esquemas religiosos e legais de sua época, manifestando-o não às classes de sábios e entendidas, mas aos simples. Não era estranho, portanto, que muitos se escandalizassem com Jesus diante da novidade de sua mensagem. As palavras eram as mesmas de sua época, ele não falava do Pai numa língua estranha aos seus. Falava-lhes, aproveitando-se dos sentidos e dos contextos de sua época. Mas o fazia “amarrando” tudo de um modo originário, apresentando seu Pai como uma boa-nova que não deixou de incomodar. Por isso vemos no evangelho que muitos se escandalizaram de Jesus: sua família e parentela de Narazé (Mt 13,57) ou os fariseus, por exemplo (Mt 15,12).

Um parêntese. A palavra escandalizar tem dois sentidos na língua grega. Em voz ativa, ela significa ser ocasião de pecado para alguém, levar alguém ao tropeço. Mas em voz passiva, ela significa: irritar-se, contrariar-se, enganar-se ou mesmo fechar-se. E é nesse sentido que ela está utilizada neste evangelho quando Jesus proclama mais uma bem-aventurança: felizes os que não se escandalizam por causa de mim; ou seja, os que se abrem à sua novidade.

O evangelho da liturgia desse 3º Domingo do Advento (Mt 2,1-11), que pode ser dividido em duas partes, começa por narrar uma crise; a crise de João Batista. Ao que parece, João também não compreendeu a novidade do que Jesus apresentava. Ele se interroga se Jesus é, de fato, aquele que devia vir e manda seus discípulos irem perguntar isso a Jesus. Os discípulos de João vão pelo caminho portando uma dúvida. Portar a dúvida de outro não é fazê-la também nossa? Em algum lugar essa pergunta devia atravessar os discípulos de João Batista que ainda viviam na época em que o evangelho de Mateus foi escrito. Mas, paradigmaticamente, o evangelho pode estar fazendo de João Batista (e de seus discípulos) uma figura corporativa, a fim de representar todo o povo da promessa que diante de Jesus se pergunta: é esse mesmo o messias esperado?

O anúncio do Batista apontava para um Messias do juízo, cujo machado já estava posto à raiz: Deus do castigo. Era preciso se converter pela penitência e oração para receber a salvação (conversão – salvação). Mas Jesus não faz chegar nenhum juízo. Antes, apresenta um Deus cheio de misericórdia, que se dá até as últimas consequências e convida a uma resposta de fé (salvação – conversão). Por isso pede que os discípulos possam contar ao Batista o que viram e ouviram. Agora eles não portarão a incerteza pelo caminho, mas a esperança. O que ouviram? Ouviram a mensagem de Jesus anunciada no Sermão da Montanha (Mt 5-7); anúncio de alegria para os pobres e excluídos, para os que estão sem consolo e sem paz, para os que têm fome e sede. Apontou uma nova justiça, superior à antiga.O que viram? Que os cegos veem, os surdos ouvem, os coxos a22>Um parêntese. A palavra escandalizar tem dois sentidos na língua grega. Em voz ativa, ela significa ser ocasião de pecado para alguém, levar alguém ao tropeço. Mas em voz passiva, ela significa: irritar-se, contrariar-se, enganar-se ou mesmo fechar-se. E é nesse sentido que ela está utilizada neste evangelho quando Jesus proclama mais uma bem-aventurança: felizes os que não se escandalizam por causa de mim; ou seja, os que se abrem à sua novidade.

O evangelho da liturgia desse 3º Domingo do Advento (Mt 2,1-11), que pode ser dividido em duas partes, começa por narrar uma crise; a crise de João Batista. Ao que parece, João também não compreendeu a novidade do que Jesus apresentava. Ele se interroga se Jesus é, de fato, aquele que devia vir e manda seus discípulos irem perguntar isso a Jesus. Os discípulos de João vão pelo caminho portando uma dúvida. Portar a dúvida de outro não é fazê-la também nossa? Em algum lugar essa pergunta devia atravessar os discípulos de João Batista que ainda viviam na época em que o evangelho de Mateus foi escrito. Mas, paradigmaticamente, o evangelho pode estar fazendo de João Batista (e de seus discípulos) uma figura corporativa, a fim de representar todo o povo da promessa que diante de Jesus se pergunta: é esse mesmo o messias esperado?

O anúncio do Batista apontava para um Messias do juízo, cujo machado já estava posto à raiz: Deus do castigo. Era preciso se converter pela penitência e oração para receber a salvação (conversão – salvação). Mas Jesus não faz chegar nenhum juízo. Antes, apresenta um Deus cheio de misericórdia, que se dá até as últimas consequências e convida a uma resposta de fé (salvação – conversão). Por isso pede que os discípulos possam contar ao Batista o que viram e ouviram. Agora eles não portarão a incerteza pelo caminho, mas a esperança. O que ouviram? Ouviram a mensagem de Jesus anunciada no Sermão da Montanha (Mt 5-7); anúncio de alegria para os pobres e excluídos, para os que estão sem consolo e sem paz, para os que têm fome e sede. Apontou uma nova justiça, superior à antiga.O que viram? Que os cegos veem, os surdos ouvem, os coxos andam, os mudos falam, os leprosos são curados, os mortos ressuscitam. Jesus restitui a todos, com sua força de vida,a força para viver, a coragem para ser; essa é radicalmente uma fonte de salvação (saúde).

Para falar ainda dessa diferença entre o que esperava o Batista e o que traz Jesus, podemos ficar com as belas palavras de Hans Urs Von Balthazar: “João Batista havia esperado um homem forte, que batiza com Espírito e fogo. E no evangelho agora aparece um homem doce que não apaga o ‘pavio que fumega’”[1]. Bem-aventurado, cheio de alegria, é aquele que está preparado para recebe-lo, que o acolhe em sua novidade radical, que não se escandaliza dele.

A segunda parte do evangelho, por outro lado, mostrará a importância desse profeta, na própria avaliação de Jesus: “o maior dentre os nascidos de mulher”. Assim, o evangelho faz cumprir também a profecia de Malaquias acerca da vinda de Elias, antes da vinda do Messias (Ml 4,5-6), entendendo João Batista como esse precursor, o novo Elias. Apesar de sua grandeza, João Batista faz parte do povo do Antigo Testamento: anunciou a chegada do Messias, mas não viu a atuação de Jesus e não viu o Reino surgindo, a partir dela. Por isso, o menor no Reino é ainda maior do que ele.

Mas, se é chegado esse tempo de alegria com Cristo, por que há tanta tristeza? Se o novo éon que Jesus inaugura é tempo messiânico, por que o sofrimento ainda persiste? Alguns judeus, inclusive, não conseguem crer que Jesus é o Messias, pois depois de sua morte e ressurreição, os males e os sofrimentos ainda resistem. E, ainda que possamos dizer que o retrato do tempo messiânico seja uma metáfora literária para falar de um tempo de consolação e misericórdia, como explicar que há desolação e tristeza? Como celebrar a alegria do Natal sem o cinismo ou a hipocrisia de ignorar que o tecido de nossa vida está rasgado pela dor, muitas vezes imposta pelos outros?

A segunda leitura talvez nos indique uma possível resposta (Tg 5,7-10). Ela também fala sobre aguardar a vinda do Cristo, mas agora estamos falando da segunda vinda, aquela que os primeiros cristãos acreditavam ser iminente e nós aguardamos até hoje. O texto fala de paciência e não julgar os outros. Ao pedir paciência, Tiago aconselha que adotemos a postura do agricultor que semeia e espera a chuva. Tiago está preocupado que a comunidade não perca os valores cristãos e ordena que eles aguardem a vinda de Cristo. Mas sem fazer nada? Acomodados, esperando tudo de Deus? Pacientes? Não. Na realidade, a palavra paciência que aparece no texto está mal traduzida. Ela deveria ser traduzida por magnanimidade, ou grandeza de alma. É assim que devemos aguardar o Senhor: plantando o seu Reino. Aliás, já falamos outras vezes que este é, de fato, o modo como ele virá na segunda vez: quanto mais nos aproximarmos dele, mais ele se fará presente. No fundo, Deus não resolve as coisas sozinho. A tristeza, a dor e o sofrimento existem e podem ser enfrentados quando encontramos em Cristo a força salvífica da coragem, mas em grande parte eles existem como produto da injustiça humana, de nossas próprias incoerências e desacertos. Quanto mais estivermos dispostos a nos aproximarmos desse Deus consolador e bondoso, mais devemos estar dispostos a converter o nosso olhar em favor de todos os que sofrem. 

A metáfora do agricultor ajuda a pensar: se de um lado ele aguarda a chuva, antes ele prepara a terra e semeia. O mundo precisa, portanto, de nossa semeadura, que continuemos plantando o Reino. Mas sem esquecer que há a chuva, que há Deus e que ele faz germinar o que é seu. De novo: o trabalho é conjunto. A salvação que vem de Deus não resolve tudo, como querem alguns judeus, bem como nossas mãos operantes não dão conta sozinhas, como querem tantos. Deus e homem são, portanto, parceiros. O primeiro salva e redime o mundo para que ele experimente abundância; o segundo continua essa obra como corredentor, se não se escandaliza com a novidade de Jesus, mas se abre a ela como quem bebe das fontes da vida.

Não nos escandalizemos, pois, com a novidade do Cristo: ela é uma realidade pulsante, fonte de alegria e brota como torrentes no deserto (Sl 126,4).


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