Nossa quaresma se tornou quarentena. Isso mesmo: em onze de março desse ano, em pleno período quaresmal na Igreja, foi declarada a pandemia do novo coronavírus. Como consequência, atendendo às recomendações do Ministério da Saúde, dos virologistas e dos infectologistas, estamos cuidando muito mais da higiene e ficando mais em casa. O isolamento social é uma das importantes atitudes de combate à COVID-19, já que se mostra bastante efetiva para achatar a curva de contágio. É imprescindível levar a sério essas recomendações, pois estamos diante não de uma “gripezinha”, mas de uma nova linguagem, cujo funcionamento não conhecemos totalmente e que tem dizimado seres humanos em vários países da Europa. O isolamento se mostrou efetivo em países como Japão, Cingapura e Tailândia e parece ser a saída também aqui no Brasil, embora muita gente não esteja ainda considerando a situação com a seriedade que ela merece. Já sabemos quais as consequências nefastas de ignorar a realidade e de não saber ler “os sinais dos tempos”. 

Esse novo vírus não mudou apenas a rotina do comércio, não afetou apenas a economia, não mudou somente o nosso modo de lidar com os outros e estabelecer relações sociais, mas mudou também a maneira de viver a fé. Igrejas abertas, mas sem missas com o povo; missas privativas transmitidas pela internet, atendimentos paroquiais reduzidos ou exclusivos pelos meios eletrônicos, confissões e unções apenas em casos mais urgentes. Essas mudanças vieram justamente num tempo muito sensível para a Igreja, tempo que se abre na nossa liturgia justamente com esta proposta: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”. (Jl 2, 12-18). Essa atenção para o povo e sua piedade não é uma tolice, mas está, isso sim, inserida num panorama contextual que vale a pena descortinar.

O vírus exigiu de nós parar. A parada brusca nos fez passar do intenso ativismo para o silêncio e para a solidão, em alguns casos. Fez sobrar mais tempo disponível, sem agenda pré-definida, agitando muitas angústias relacionadas à produtividade. Estamos obrigados a produzir e, por meio disso; do ativismo e da produção, definimos nosso valor. Perder isso bruscamente angustia, mas a angústia nunca mente e, a partir dela, podemos descortinar o ser. Além disso, não somos tão hábeis para administrar nosso tempo, para inserir entre as horas de nossos dias alguns instantes de eternidade, de sentido. Vivemos, quase sempre, sob o piloto automático, sem atenção ao que nos rodeia ou a quem nos rodeia. Com tempo de sobra, sem desculpas para a desatenção, forçados às relações com os mais próximos, somos chamados à criatividade para lidar com o tempo. Guimarães Rosa ganha todo peso que merece aqui: “penso que chega um momento na vida da gente, em que o único dever é lutar ferozmente por introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de ‘eternidade’”.

Mas podemos ir mais longe: parar e lidar com o tempo não são os únicos efeitos do vírus como causa. Para nós latinos, algo de mal-estar é sentido em toda esse processo de confinamento: não poder tocar, não poder abraçar, ser caloroso. Para os mais afetuosos, essa é certamente uma dificuldade. Por mais descrédito que possamos ter com o ser humano, somos ainda em muitas circunstâncias, hospitaleiros e acolhedores. Ou se os mais céticos quiserem: somos naturalmente gregários. Esse mal-estar se agrava mais, quando levamos em consideração que o novo coronavírus e a exposição contínua às informações trágicas do que ele causou em outros países nos põem abertamente diante de nossa finitude. Nós costumamos ignorar a certeza de nossa morte e esse é um jeito de aliviarmos a tensão e continuar a viver, mas esse novo momento em nossa história é incontornavelmente a explicitação de nossa mortalidade e fragilidade. E isso nos aflige.

Como viver a fé em meio a todo esse cenário? Pois a fé não é uma panaceia, um placebo para a realidade aflitiva que estamos vivendo. Se ela for uma maneira de voltar-se para o alto, negando a realidade e sua dureza, ela não passará de denegação do desamparo e não será mais do que má-fé. Ou seja: não basta fechar os olhos para o mundo. A fé também não é uma espécie de bolha mágica, redoma protetora que nos isenta de sofrer. Em geral, o pensamento mágico está muito presente entre nós; alguns idosos se expõem, por exemplo, crendo que vão contrair o novo coronavírus “se tiver que ser” ou dizendo que não vão contraí-lo, porque “Deus protege”. É preciso tomar cuidado para não converter a fé num assassinato de nossa racionalidade e de nossa própria responsabilidade. Mas, então, o que é fé?

Teologicamente, como Deus não permanece no silêncio, mas suspendendo os véus de seu Mistério silente, fala-nos ao coração, revela-se, se comunica e se autocomunica, a fé é uma resposta; é o ato de receber essa Revelação. A fé é um ato de escuta dessa Palavra, de consentimento. Atenção para a palavra: consentir, sentir com. Fé é aquela aliança estabelecida no altar do coração, é consentir com o projeto de salvação de Deus (não só pessoal, mas também comunitário). Por isso nossa fé se situa nessa dupla resposta: eu creio, nós cremos. Fé é, além disso, entrega livre, desejo e adesão. Essa entrega é possível graças a um encontro, a uma experiência radical capaz de abrir-nos os olhos para a luz. A fé pode ser definida, portanto, com essas características responsais. Mas um elemento não pode ser esquecido para falar da fé como ato. Como diria o teólogo Christoph Theobald, a fé não é só responsorial, mas deve ser compreendida como ato de transformar: “Em verdade, eu vos declaro, se alguém disser a esta montanha: ‘Sai daí e atira-te ao mar”, se não duvidar em seu coração, mas crer que o que diz sucederá, isto lhe será concedido” (Mc 11, 22; cf. 1 Cor 13, 2).

A citação anterior causa alguns problemas se a lermos literalmente. Ali, a utilizamos para dizer da força criativa da fé; a fé ajuda-nos a ler a história e a transformá-la, já que somos partícipes da criação de Deus e também de sua redenção.  Essa transformação não é magia. A dúvida também não é oposição à fé. Sem dúvidas, a fé mesma não existiria e seria, portanto, certeza ou delírio. O texto nos aponta para a confiança: a confiança é uma travessia; uma travessia, inclusive, da dúvida. A vida humana sem fé não é possível. Dados os limites de nossa existência, de nossas relações, é impossível viver sem transpor o limiar das dúvidas, das incertezas, sem se lançar no mar de possibilidades, sem coragem. Para ficar de novo com o escritor Guimarães Rosa: “o que a vida quer de nós é coragem”.

Nesse momento de incertezas, a fé nos pode ajudar muito, se ela for tomada, sobretudo, como ato de transformar, como possibilidade da criatividade. Ela nos pode ajudar a usar o isolamento, a solidão e o tempo como oportunidades de encontro com o Mistério da Vida que sempre se avizinha de nós. Na quaresma, esse encontro pode ser vivido através da oração que não é outra coisa, senão a celebração de uma relação. E há muitos modos de rezar, contanto que a oração seja menos um formalismo, menos uma grandiloquência e muito mais um encontro: “deixa que a respiração profunda do teu ser aconteça. Só isso. Não interrogues nem busques. Deixa que seja Deus a procurar-te. Não caminhes. Deus virá ao teu encontro. Não procures contemplar. Permite, antes, que Deus te contemple. Não rezes. Deixa que, em silêncio, ele reze o que tu és” (José Tolentino). Rezar de verdade parece exigir suspender as pretensões todas, inclusive as de rezar.  Pode ser, enfim, o momento oportuno de atender àquele chamado: “entra no teu quarto, fecha a porta, e ora ao Teu Pai em segredo”(Mt 6, 6).

A fé também pode ser vivida como encontro com os outros. As distâncias físicas não precisam implicar na distância afetiva. A afetividade se comunica (e ninguém está impedido das palavras!). Talvez seja hora de voltar à palavra, já que desaprendemos como dizer o óbvio. Submetidos à ilusão constante de transparência, deixamos de fazer perguntas e de dar ouvidos ao desejo do outro (e aos nossos também). A fé pode nos ajudar, porque ela não celebra apenas o encontro com o Totalmente outro, mas também com a face do irmão, onde a face de Deus se mostra. Teremos de ser criativos aqui também: para encontrar com aqueles que amamos (dentro de nossas casas) e, sobretudo, com aqueles que não podemos encontrar fisicamente. Os meios eletrônicos, tão duramente criticados, aparecem agora como uma saída possível.

E, agora, que estamos sob a explicitude de nossa finitude, a fé também pode nos ajudar. Pois nossa vida mesma é um enigma e, por mais que seja um dado, não se trata de um dado objetivo, mas que deve ser subjetivado e tomado como existência, como responsabilidade. Ora, os sentidos da existência não estão preestabelecidos e “cabe a cada um tornar sensata sua vida” (Christoph Theobald). Para tanto, o saber da morte pode servir como tomada dessa responsabilidade: se a vida é finita, é preciso abrir-se ao que de in-finito nos visita. A fé, outrossim, não nos autoriza a trocar esta vida pela vida futura, mas a dar sentido a esta vida. Os mártires terão desprezado esta vida, ou resolvido não negar o sentido que encontraram para a mesma?

Com Igrejas fechadas, com a dificuldade de acessar os sacramentos, na ausência de presbíteros, Deus não virou suas costas para o seu povo. Ele continua acessível. Para entrar em relação com Deus, os presbíteros não são imprescindíveis. Deus ainda pode ser experimentado e tocar todos os nossos sentidos, pois a vida humana aberta a ele e traduzida em compromisso com o irmão é ainda a melhor liturgia: “levanta agora para Deus o teu olhar. E mesmo sem ver, contempla. Dirige para Deus a tua prece. E mesmo sem palavras, fala. Estende para Deus as tuas mãos. E sem nada prender, toca. Abre para Deus o teu ouvido. E escuta o que ele diz neste silêncio. Alimenta-te agora de Deus. E saboreia o que ultrapassa todo sabor.” (José Tolentino)

De fato, muitos estão afastados agora dos sacramentos, mas isso é passageiro. Deus é a própria fonte de criatividade, entretanto, e continua alimentando-nos com sua força e nos dando a sua graça santificante e sua graça como auxílio. Ele continua nos perdoando como Pai Amoroso e conduzindo-nos por seu Caminho, se assim permitirmos. Logo mais, quando as coisas estiverem de novo em seus devidos lugares, poderemos voltar aos sacramentos tendo entendido melhor o que eles significam. Por ora, longe do relativismo, mas perto do sentido sabemos: Deus não nos fecha nunca as portas da sua graça, porque jamais deixa de nos amar.


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