Há muitos e muitos anos atrás, um oleiro decorava e pintava um lindo vaso, quando uma pedra, vinda da direção da rua, acertou em cheio um dos vasos de sua produção.

Indignado e furioso, o oleiro gritava a sua indignação com palavrões e impropérios de fazer doer os ouvidos de qualquer pessoa minimamente decente. Então, correu até a porta da sua olaria onde já havia um monte de curiosos, diante do grande culpado: um poeta. A multidão – doida por uma confusão – esperava o enfrentamento das partes envolvidas.

O poeta e o oleiro foram levados ao juiz, um homem bondoso e calmo, que, ao ver a irritação do oleiro, foi logo perguntando:

– O que se passa? Por que tanta irritação. Você foi agredido?

O oleiro respondeu:

– Sim, senhor juiz, eu fui agredido. Eu estava trabalhando na minha oficina, fazendo vasos para vender, quando uma pedra atingiu um belo vaso que eu acabara de moldar. Fora esse poeta desavisado quem atirou uma pedra e acertou minha obra, partindo-a em um montão de pedaços. Isso é um absurdo. Quero uma indenização pelo dano causado.

Virando-se para o poeta, o juiz perguntou:

– É verdade o que diz o oleiro? Por que você fez isso? O que você diz em sua própria defesa?

– Senhor juiz – respondeu o poeta – há três dias passava eu à porta do oleiro, quando percebi que ele declamava um dos meus poemas. Ao notar que os versos estavam errados, aproximei-me dele delicadamente e ensinei-lhe a forma correta, que ele repetiu sem nenhuma dificuldade. No dia seguinte, passei por lá outra vez e ele declamava-os novamente, mas completamente deturpados. Com toda a paciência, ensinei mais uma vez o meu poema ao oleiro, pedindo a ele que não os depreciasse. Hoje, ao voltar do trabalho, para minha surpresa, ao passar na sua porta, escutei-o declamando meus versos com rimas estropiadas, estragando completamente os minha obra. Então, apanhei uma pedra do chão e parti-lhe um dos seus bonitos vasos. O meu procedimento foi a resposta de um poeta ferido na sua sensibilidade artística diante de um indivíduo grosseiro e insensível à beleza da poesia.

Ao ouvir estas alegações, o juiz disse ao oleiro:

– Espero que você tenha aprendido a lição. Respeite as obras alheias a fim de que os outros artistas respeitem as suas. Se você se julgou no direito de estragar os versos do poeta, achou-se ele também com o direito de partir o seu vaso. Lembre-se de que se o poeta é o oleiro da frase, o bom oleiro é o poeta da cerâmica!

E continuou o juiz:

– Determino que o oleiro fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e cores harmoniosas, no qual o poeta escreverá um dos seus lindos poemas. Esse vaso será vendido em leilão e o produto dessa venda será dividido igualmente entre os dois.

E assim foi feito. E tal foi o sucesso da venda do vaso que o oleiro e o poeta resolveram fazer novos vasos com novos poemas… E foram tantas as encomendas que o oleiro e o poeta se viram trabalhando juntos, decidindo os formatos e os desenhos dos vasos que combinassem com a harmonia e a beleza dos versos. Nasceu daí grande parceria e bela amizade!


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