16

9 Ressuscitado na madrugada do primeiro dia depois do sábado, Jesus apareceu primeiro a Maria Madalena, de quem tinha expulsado sete demônios.
10 Ela foi anunciar o fato aos seguidores de Jesus, que estavam de luto e choravam.
11 Quando ouviram que ele estava vivo e tinha sido visto por ela, não acreditaram.
12 Depois disso, Jesus apareceu a dois deles, sob outra aparência, enquanto estavam indo para o campo.
13 Eles contaram aos outros. Também não acreditaram nesses dois.
14 Por fim, Jesus apareceu aos onze discípulos, enquanto estavam comendo. Ele os criticou pela falta de fé e pela dureza de coração, porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado.
15 E disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa-Nova a toda criatura!
16 Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado.
17 Eis os sinais que acompanharão aqueles que crerem: expulsarão demônios em meu nome; falarão novas línguas;
18 se pegarem em serpentes e beberem veneno mortal, não lhes fará mal algum; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, estes ficarão curados”.
19 Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi elevado ao céu e sentou-se à direita de Deus.
20 Então, os discípulos foram anunciar a Boa Nova por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra pelos sinais que a acompanhavam.

Situando…

Chegamos ao fim do Evangelho de Marcos. Como vimos na semana passada, o texto original de Mc terminava em 16,8. Sabemos disso pela coerência entre a narrativa da ressurreição (16,1-8) e o esquema teológico de todo o Evangelho. Além disso, os relatos de aparição são um claro resumo dos outros evangelhos: Mateus, Lucas e João, deixando sinais evidentes de ser um acréscimo, em outro estilo de escrita que não o sucinto jeito marcano. Ao fundar um novo “segredo messiânico” e convidar a refazer o caminho do discipulado, Marcos encerra o Evangelho afirmando a presença do Ressuscitado, não visível e nem palpável, mas verdadeira a partir da fé (cf. Estudo 41). Para Mc, os relatos de aparição são dispensáveis. A fé em Jesus como o Cristo e Filho de Deus não depende de ver o Ressurecto dentre os mortos. Ao contrário, é na boca do soldado romano, aos pés do Crucificado, que essa confissão aparece. Ao olhar a fidelidade do Nazareno, morto numa cruz, silencioso e obediente como cordeiro levado para o matadouro, é que o reconhecimento de seu messianismo acontece. Se para os judeus, o messias é o glorioso, aquele que vem para se impor sobre os poderes desse mundo, para Mc, o messias se revela no aniquilamento: é o servo sofredor, o messias às avessas.

Com o passar do tempo, porém, quando os textos dos outros Evangelhos circularam pelas comunidades, fundando uma espécie de patrimônio comum que daria origem ao cânon das Escrituras, houve quem achasse que Mc estava incompleto. Afinal, as chamadas “aparições do Ressuscitado” se tornaram a literatura mais comum para se narrar a Ressurreição. Tanto que, até hoje, há quem acredite que, sem as “aparições”, não é possível crer no Ressuscitado. E, como o texto de Mc não utiliza essas narrativas, elas lhe foram acrescentadas.

Assim, o que temos nos vv. 9-20 do cap. 16 são acréscimos de “aparições do Ressuscitado”, construídas a partir das narrativas dos outros Evangelhos.

E deixou-se ver…

O texto situa novamente a ressurreição “na madrugada do primeiro dia, depois do sábado” (v. 9 – cf. Mc 16,2), fazendo clara referência à vida que é recriada a partir do Ressuscitado. E informa que Jesus apareceu “primeiro a Maria Madalena, de quem expulsara sete demônios”. A informação de que Jesus tinha expulsado “sete demônios” de Madalena provém do Evangelho de Lucas (Lc 8,2), quando são apresentadas as mulheres que seguiam Jesus. Na tradição dos sábios de Israel, o Mestre exorcizava sete vezes o discípulo, no intuito de livrá-lo de todo mal e deixá-lo inteiramente disponível a Deus e sua palavra. Equivale, pois, a dizer: “Maria Madalena é autêntica discípula do Senhor”, bem ao contrário da fama que tem carregado de mulher de moral duvidosa, numa complicada confusão feita com a mulher adúltera de Jo 8,1-11. E não só em Lc Maria Madalena é entendida como verdadeira discípula. Também em João temos sinais dessa indicação, pois é ela a destinatária da primeira aparição. O relato nos é conhecido: sepultado no jardim, o Ressuscitado aparece a ela, sem ser reconhecido. Ela o confunde com o jardineiro, até ser chamada pelo nome, como discípula, exclamar: “Mestre!” (cf. Jo 20,11-18). Em Jo, assim como em Mc, Maria Madalena recebe de Jesus o mandado de anunciar aos discípulos a ressurreição. E, tal como em Lc, os discípulos não acreditam nela (vv. 10-11 – cf. Lc 24,1-11: em Lc, os discípulos não creem no anúncio feito por Madalena e as outras mulheres, que viram “dois homens com vestes brancas”). Parece que o problema está bem mais em quem recebe a notícia da ressurreição – os apóstolos – do que naquela que anuncia a partir da experiência do encontro com o Senhor que está vivo. Não é mesmo possível fazer a experiência da ressurreição a partir do que dizem sobre o Ressuscitado; para crer é preciso bem mais: estar com o Senhor da vida, que comunica a nós sua vida também.

Em seguida, o acréscimo de Mc menciona uma aparição “a dois discípulos que iam para o campo” (v. 12), em aparente referência aos “discípulos de Emaús”, narrado de modo tão bonito em Lc 24,13ss. No relato lucano, esses dois discípulos também voltam aos Onze reunidos, mas seu testemunho não recebe crédito (v. 13). De novo, a mensagem da ressurreição é desacreditada. Não sei por que ainda hoje estranhamos quando nosso anúncio não surte imediatamente o efeito desejado. Os caminhos da experiência da ressurreição são singelos, exigem tempo, presença, comunhão.

Por fim, o próprio Senhor aparece aos Onze (v. 14). Em Lc, Jesus aparece “enquanto os dois ainda falavam”, numa clara referência a Lc (cf. Lc 24,36), mas é de João que vem a censura pela falta de fé (cf. Jo 20,29), do famoso diálogo do Ressuscitado com Tomé. A dureza de coração, que faz com que alguns fiquem fora do caminho de Jesus relatado em Mc, aparece de novo aqui como impedimento para o encontro com o Nazareno que continua vivo, mesmo quando não é possível vê-lo.

É bom observar que não há, nesses relatos de aparição presentes em Mc, qualquer menção do Espírito Santo. O redator que fez os acréscimos garante que os discípulos foram enviados por Jesus a pregar a boa notícia ao mundo inteiro (v. 15), mas não faz referência à ação do Espírito como é o caso de Lucas (cf. Lc 24,49; At 1,8). As instruções parecem vir de Mt e Lc, quando Jesus orienta os discípulos sobre o modo de espalhar no mundo o evangelho , mas a frase que vem a seguir (“Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado”) parece saída do Evangelho de João (cf. Jo 3,17). Para quem está acostumado à linguagem marcana e ao valor que Mc reserva para o Reino de Deus, parece estranha a ausência da menção ao Reino, como seria natural em seu evangelho (a “boa nova do Reino, que já chegou”).

Em vez de afirmar a presença do Espírito de forma explícita, o redator garante a presença do Espírito pelos sinais que dão credibilidade ao anúncio: expulsar demônios, falar novas línguas, não ser atingido por veneno mortífero e curar os enfermos. Alguns destes sinais aparecem em Mt 10,1, em Lc 10,17-19, em At 2,4 ou em At 28,1-10 (quando Paulo é picado por uma serpente, mas não é atingido por seu veneno mortal). Sobre esses sinais, vale uma rápida palavrinha. Esse ajuntado que o autor faz não deve absolutamente ser interpretado de forma literal. São metáforas para dizer do poder da fé cristã, capaz de nos sustentar em toda situação difícil e em toda tribulação. Vencer demônios, doenças e outras situações embaraçosas são sinais do Reino que já chegou. O redator do texto, conhecendo os relatos dos outros evangelistas, garante que Deus estará com os seus, com aqueles que anunciam o seu evangelho. Mas seria total tolice pensar que essas afirmações devem ser tomadas ao pé da letra. Se todos os Evangelhos são releituras pós-pascais e devem ser lidos com fé e clareza, ainda mais esses textos que põe a vida do discípulo em risco, como beber veneno mortífero. Pura metáfora para dizer do poder da fé em Cristo e de sua presença benfazeja em nossa vida.

O texto termina com uma rápida alusão à ascensão (v. 19), que advém da tradição lucana (cf. Lc 24,50-52; At 1,6-11). Jesus é elevado aos céus e assentado à direita de Deus. Ora, na cosmologia judaica que entende o céu – lugar da habitação divina – como logo acima das nuvens, parece óbvio que Jesus suba ao céu e seja entronizado como Filho de Deus, à sua direita, gozando do privilégio de governar com ele. Certamente é uma bela metáfora para garantir a vitória de Cristo e seu poderio sobre todas as coisas. Aquele que foi crucificado continua não só vivo entre nós, mas ele reina com o Pai.

O último versículo garante que os discípulos obedecem à ordem do Senhor e os sinais da presença de Deus os acompanham (v. 20). Tal versículo também se assemelha muito aos conhecidos “adágios” de Lucas, nos At: “e a comunidade crescia dia a dia…”, ou “o Senhor confirmava os eleitos com sinais…”, ou ainda “e permaneciam fieis, adorando ao Senhor…”. Ao final de tudo, uma garantia: o Ressuscitado continua com os seus e o anúncio do evangelho é obra dele.

***

O Evangelho de Marcos foi um caminho de discipulado. Ao longo desse caminho, esperamos que nós todos, discípulos do Senhor, tenhamos renovado nosso compromisso de segui-lo. Atentos ao convite de Marcos, é, pois, hora de voltar “às Galileias de nossas vidas”, lá onde o Senhor um dia nos encontrou e nos chamou. Pois é aí mesmo, no chão de nossas urgências cotidianas, que ele nos aguarda. Estejamos assim disponíveis, atentos e desarmados, dispostos a retomar sempre de novo o caminho, sabendo que o seguimento amadurece sempre, mas não termina nunca. E que, aprendendo do pó do caminho, possamos exclamar com todo o coração: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus!


Estudo anterior: 41. Ao Amanhecer (Mc 16,1-8)
Próximo estudo: 1. O Evangelho de Mateus: autor, destinatários e contexto

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