A ESPERANÇA COMO VIGILÂNCIA, ou o DEUS QUE É, QUE ERA E QUE VEM!

Abrimos mais um ano litúrgico com o tempo do Advento, tempo de esperas, de esperança. Espera ativa, como quem está de prontidão pela vinda do Salvador que vai se debruçar sobre a nossa história e se expor à nossa (des)humanidade. Trilhando conosco as sendas de ser gente, ele nos vai mostrar que divino e humano não são realidades opostas, imiscíveis, mas comunicantes. Tempo de esperança, pois somos convidados a ver para além das estreitezas e limites do hoje. A esperança de nossa fé ensina-nos que Deus é Aquele que era, que é e que vem. Aquele que faz história e se autocomunica no tempo, abraçando o passado que nos empurra (era), o presente que nos compromete (é) e o futuro que nos evoca (vem).

Deus vem. Vem quando? Na realidade, podemos dizer que já veio. O Cristo nasceu entre nós como luz que afasta as trevas da escuridão, para ser Deus-Conosco. Evidentemente que essa vinda não ficou fechada no tempo ou reclusa ao passado. Porque o celebramos, o nascimento do Cristo não ficou lá, há dois mil anos atrás, mas acontece hoje ainda, na memória da fé; memória viva e eficaz. Contudo, o que dizemos é: Deus vem – e não que veio. Isso, porque ainda cremos numa segunda vinda de Cristo. Será um dia de juízo? O dia da Ressurreição final? Há divergências sobre esse assunto, mas o que interessa é que temos o direito de esperar a segunda vinda de Cristo não como um evento, um futurível incerto, mas como um acontecimento existencial: Deus não virá, ele vem (agora!) sobre a vida de cada um, ele vem vindo sempre ao encontro de cada ser humano. Advento é, também, tempo para abrir-lhe as portas.

Em tempos de advento, revisitemos o profeta Isaías. O profeta (2,1-5) narra uma visão, ou seja, o autor utiliza-se de uma metáfora, uma imagem, para falar sobre a peregrinação de todas as nações e de numerosos povos à montanha do Senhor. Não era estranho ao profeta ver as grandes movimentações das pessoas ao Templo de Jerusalém, por ocasião das festas religiosas. Desse dado comum da história, o profeta nos narra, então, sua esperança: um dia de congregação, não do povo de Israel apenas, mas de todos os povos. O encontro com o Senhor, naquele dia, não será apenas cúltico ou celebrativo, não apenas um encontro festivo, mas um encontro transformador. É do alto do monte, lugar onde deus habita, quando todos forem um só e seguirem os caminhos e os preceitos do Senhor que as espadas se transformarão em arados e as lanças em foices; não haverá mais combates nem luta, mas sim trabalho para construir a paz. O conteúdo messiânico dessa profecia impele o povo à esperança ativa: ir ao encontro do Senhor que atrai todos os povos. Essa esperança profética, embora do passado, encontra no Cristo de nossa fé, sua plena realização e, ainda hoje, compele a nossa esperança: o Deus que vem como luz, quer que superemos as armas, as foices e as espadas, em prol da unidade e da paz.

Paralelo à profecia de Isaías, encontra-se o salmo (Sl 121[122]), que é uma oração, no mínimo, intrigante. Trata-se de um salmo de subida ao Templo, cujo refrão nos diz: “vamos à casa do Senhor”. Quando celebramos no Advento o Deus que vem, é curioso pensar: somos nós os convidados a ir ao seu encontro.

Somados a esses textos, abramos os olhos e o coração para acolher a Carta de São Paulo aos Romanos, escrita quando provavelmente Paulo estava em Corinto, por volta do ano 59 d.C. A carta deixa aparecer um receio do apóstolo, um receio diante de uma realidade premente: a divisão entre as comunidades judeu-cristãs e as comunidades pagão-cristãs. Atento a essa realidade, o apóstolo convida à unidade e convida os cristãos à vigilância; é hora de despertar, pois a salvação está próxima. O Cristo está prestes a voltar, pensava ele. E, enquanto esperamos sua vinda, nós mesmos somos chamados a ir ao seu encontro, revestindo-nos dele, despojando-nos das ações das trevas. Não é afinal, assim que ele retorna, quando aparece em nós?

Preparando-nos para o encontro com o Deus-Menino no Natal, paradoxalmente o evangelho (24,37-44) nos incita a pensar nas realidades últimas. O contexto literário do relato é completamente escatológico. Depois de dizer que não restaria pedra sobre pedra do Templo (Mt 24,2), os discípulos, intrigados, perguntam ao Mestre quando tudo isso aconteceria. Jesus não diz nem o dia nem a hora, mas afirma que ele mesmo, que participa em tudo do amor do Pai, não conhece. Em vez de uma resposta pontual à pergunta, Jesus alerta; é preciso vigilância. O estado de vigilância a que Jesus nos convida pode parecer, com um estado de alerta e tensão, mas não é bem isso. Convida-nos a nos ater ao que é essencial na vida e a não nos perder ou nos entregar à desatenção a que nos leva a rotina diária (“comiam e bebiam”) ou as tradições (“casavam-se e davam-se em casamento”). Por mais que sejam necessárias, tais realidades podem ninar o homem e adormecê-lo para o que mais importa: a vinda do Filho do homem sobre todos. Essa vinda é surpreendente, imprevista e, por isso, se vivida como uma tensão diante de um evento futuro, poderia se tornar um estresse, ao invés de uma boa notícia. Mas vivida como um acontecimento existencial, de um Deus que vem ao nosso encontro sempre, essa vigilância pode se tornar um modo de estar desperto para o essencial da vida e para os modos de viver até o mais cotidiano. Assim, a vinda do Filho do homem não nos pegará de assalto (já que chega como um ladrão), mas bem acordados.

O evangelho não fala sobre o arrebatamento de ninguém, os levados e os deixados também não apontam para uma seleção entre bons e maus, num dia do juízo. Com essa linguagem escatológica, o texto está mostrando como as pessoas mesmas se dividem diante da realidade do Cristo-que-vem: umas estão preparadas para surpreendê-lo entre as brechas de nosso tempo, entre as cotidianidades e ordinariedades de nossa vida. Desse modo, ainda que estejam diante das trivialidades da existência, o modo de vivê-las será prenhe de sentido. Essas terão sido levadas, fisgadas por algo de essencial que está para além do visto, que contorna e preenche a vida. Os outros, os deixados, continuarão entre hábitos e tradições, mas jamais despertarão para a realidade de Deus que nos visita sempre e nas horas em que menos imaginamos.

Portanto, entre passado, presente e futuro, despertos para o Deus que era, que é e que vem, o Advento não é só o tempo em que celebramos a vinda cotidiana de Deus ao nosso encontro. É também o tempo em que celebramos a nossa ida ao seu encontro, na fé e na atitude de vida. A vinda dele e a nossa ida nos permitirão celebrar o Natal dele e, porque não, também o de nossa própria humanidade.


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