Dona Josefa fora catequista a vida toda. Desde adolescente dedicara-se à difícil tarefa de ensinar o catecismo, preparando as crianças para a primeira comunhão. Os tempos mudaram, as crianças mudaram, a catequese mudou, mas não dona Josefa, catedrática em catecismo. A distinta senhora sabia de cor os dois catecismos com todas as suas perguntas e respostas na ponta da língua. E vivia inconformada de ver que a meninada já não se importava com as lições que a boa senhora ensinava.

Insatisfeita com o resultado de seu trabalho, dona Josefa foi reclamar com o pároco, mostrando ao senhor reverendo que as crianças de hoje não querem nada com a religião, que desdenham os ensinamentos de Deus e não sabem o catecismo ensinado. Não era admissível que tais crianças, que só pintavam o sete na sua catequese, fossem ao final do ano fazer a primeira comunhão. Quantas vezes dona Josefa ensinara quem é Deus, quantos Deus há, onde está Deus etc, exatamente como reza o Primeiro Catecismo. Mas as crianças não sabiam nada, absolutamente nada. Joãozinho e Zezinho, então, nem se fala. Eram dois pestinhas que só davam trabalho, mexiam com todo mundo, escondiam o material dos colegas, roubavam a merenda das meninas e até nos apetrechos da catequista se atreviam a botar a mão. Quando algo sumia, todo mundo sabia: Joãozinho e Zezinho tinham algo a ver com isso.

Tamanha fora a revolta de dona Josefa que ela pediu ao pároco que interrogasse as crianças antes da primeira comunhão. Quem soubesse responder as perguntas do catecismo, bem: estes seriam premiados com a primeira comunhão, propôs a boa senhora. Quanto àqueles que nada sabiam: amém! A primeira comunhão não seria possível para eles.

Depois de muito insistir, dona Josefa convenceu o padre, que marcou a arguição. Todos em fila à espera do grande momento, Joãozinho e Zezinho tremiam de medo, sabendo não ter levado a sério o catecismo estudado. O padre fez cara de bravo e começou seu trabalho. Primeira criança, primeira pergunta do catecismo: “Quem é Deus?”. Maria, uma boa menina, sabia tudo de cor e salteado. “Deus é um espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra”. “Muito bem, Mariazinha”, disse o velho padre, “basta isso; está pronta para a primeira comunhão”.

Ao sair da sala, os colegas esperavam Mariazinha ansiosos. Mas a menininha acalmou os ânimos, dizendo que a prova era “mamão com mel”; uma facilidade sem conta.

Chegara a vez de Luizinho, levado da breca, mas filho de pais igrejeiros que não deixavam a lição sem estudar. O menino foi logo inquirido pelo padre com ar severo: “Uma pergunta só, Luizinho, e basta: Quantos Deus há?”. Para a segunda criança, a segunda pergunta do catecismo. Luizinho sabia o catecismo na ponta da língua e foi logo respondendo: “Há um só Deus em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo!”. Luizinho tirou 10 com louvor. Saiu feliz da prova de fogo.

Joãozinho e Zezinho esperavam aflitos a saída do companheiro de bagunça para testemunhar o grau de gravidade daquela prova. Mas, para surpresa dos meninos, a resposta de Luizinho fora a mesma de Mariazinha. Aquela prova era uma mamata. Bastava responder uma única perguntinha e estava tudo bem.

Joãozinho entrou animado para a arguíção. O padre, sabendo da fama do menino, foi logo fazendo cara de bravo e jogando em Joãozinho a terceira pergunta do catecismo: “Joãozinho, vou te fazer uma só pergunta. E quero resposta franca e verdadeira, sem enrolação: Onde está Deus, Joãozinho?”. Joãozinho arrepiou ao ouvir a questão e se pôs a pensar. Se ele soubesse onde estava Deus, ele até diria, mas não sabia mesmo onde Deus estava escondido. Percebendo o vacilo do menino, o padre reiterou a pergunta, mas não antes sem um sermão: “Você e seu irmão não são flor que se cheire. Vocês vivem aprontando. Não estudaram o catecismo como se deve; só fizeram confusão. Agora quero ver. Não minta pra mim, nem tente me trapacear. Só responda uma coisa: Onde está Deus, Joãozinho?”. Joãozinho não sabia mesmo o que dizer e começou a se desesperar. Quando o padre levantou a voz e imperiosamente inquiriu o menino pela terceira vez, Joãozinho – desesperado – saiu correndo e foi logo avisar Zezinho, seu irmão, do perigo que eles corriam.

Zezinho sem entender nada, perguntou: “Mas o que houve? Por que tanto desespero?”. E Joãozinho disse ofegante: “Menino, você não sabe em que rolo nós nos metemos. O padre me perguntou onde está Deus. Ele jura que eu sei e que você também sabe. O que vamos fazer? Deus sumiu e estão achando que a culpa é nossa!”. E os dois meninos caçaram jeito de se esconder com medo de serem os culpados pelo sumiço de Deus!

Depois de tal episódio, nem assim dona Josefa percebeu a inadequação de seu catecismo. E continuou ensinando quem é Deus, quantos Deus há e onde está Deus…


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