16

1 Passado o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para embalsamar o corpo de Jesus.
2 E bem cedo no primeiro dia da semana, ao raiar do sol,foram ao túmulo.
3 Elas comentavam entre si: “Quem vai remover para nós a pedra da entrada do túmulo?”
4 Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, perceberam que a pedra já tinha sido removida.
5 Entraram, então, no túmulo e viram um jovem sentado do lado direito,vestido de branco. E ficaram muito assustadas.
6 Mas o jovem lhes disse: “Não vos assusteis!Procurais Jesus, o nazareno, aquele que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde o puseram!
7 Mas ide, dizei a seus discípulos e a Pedro: ‘Ele vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis, como ele vos disse!’”
8 Elas, em tremor e fora de si, saíram e fugiram do túmulo. E não disseram nada a ninguém, pois estavam com temor.

Situando…

Ao lado nas narrativas da paixão, os relatos da ressurreição ocupam em nossa memória religiosa um lugar especial. Neles, se registra a memória de uma experiência que mudou a vida de muitas pessoas e fundou a comunidade primitiva. Diante do novo que experimentaram em Jesus, os discípulos definem essa experiência com vários nomes: exaltação (p. ex.: Fl 2,9; 1Tm 3,6; At 2,33; Hb 7,26), glorificação (p. ex.: 2Ts 1,12; Jo 12,23; 13,31; 16,14), ressurreição (p. ex.: 1Cor 15,4.13; Rm 4,25; At 26,8) e tantos outros. São relatos muito ricos e densos, com profunda simbologia e muitas remissões ao Antigo Testamento, como que para dizer: em Jesus, finalmente, se cumpriu tudo o que foi prometido aos nossos pais e que, até hoje, esperamos. Embora esteja no fim do texto, a experiência da ressurreição é o que funda os Evangelhos, pois foi por causa dessa experiência que os discípulos releram a vida de Jesus e a reinterpretaram à luz da fé (cf. Estudo 3).

Embora as chamadas “aparições do Ressuscitado” tenham lugar tão importante nos outros Evangelhos, em Mc não há uma sequer. É curioso, mas, ao que parece, a comunidade que gestou este Evangelho não precisou das “aparições” para afirmar sua fé em Jesus como Cristo e Filho de Deus. Em sua única catequese explícita sobre a ressurreição, Jesus não aparece, não fala, não se faz reconhecer; mas é anunciado como aquele que está vivo – o que se converteu no anúncio principal e mais primitivo da Igreja.

 O primeiro dia

Segundo Mc, Jesus foi morto no “dia da preparação”, véspera do sábado (Mc 15,42) e sepultado no fim da tarde, aos cuidados de José de Arimateia (Mc 15,43). Sem o tempo necessário para os preparos fúnebres, as mulheres olharam de longe o lugar da sepultura (Mc 15,47) e, na manhã depois do sábado, após cumprir o repouso ordenado pela Lei, retornam trazendo os perfumes para embalsamar o corpo de Jesus (v. 1). No conjunto da narrativa, isso não é necessário, pois Jesus já foi “embalsamado” com antecedência, pela mulher que lhe derramou perfume nos pés e enxugou com os cabelos “em vista de sua morte” (cf. Mc 14,3-9). Mas elas seguem ao túmulo, levando consigo unguentos de morte – ainda não experimentaram a ressurreição.

Era o “primeiro dia da semana” (v. 2). Se Marcos já disse ser “depois do sábado”, por que reafirmar “o primeiro dia da semana”? Talvez, ele não esteja se referindo ao dia da semana, no calendário, mas aos dias da criação, conforme o relato do Gênesis (cf. Gn 1,1–2,4a). De fato, a ação criadora de Deus começa “no primeiro dia”. Ou melhor, começa por criar a luz e separá-la das trevas, criando a alternância entre dias e noites que daria origem ao tempo. A criação começa pela luz e, com ela, origina-se “o primeiro dia”. Com sua ressurreição, Jesus também inaugura um “primeiro dia” de uma nova criação. Nele, todas as coisas são recriadas para uma vida que já não conhece morte, para um dia que não conhece entardecer. A ressurreição de Jesus é apenas o “primeiro dia” de um novo tempo, gerado para nós desde toda a eternidade. As mulheres ainda não sabem disso. Não é, pois, sem razão que caminham ainda no escuro, ou na penumbra, “bem cedo, ao raiar do sol”. Também nós peregrinamos no escuro até que nos encontremos com o Ressuscitado. É ele o sol de nossas vidas, que ilumina até os recônditos mais secretos de nosso coração. Por isso, não importa o dia do calendário: qualquer que seja, será o “primeiro dia” da semana. Como também para nós: não importa quando o encontremos, ou que momento da vida. Esse dia de encontro e de suprema claridade será para nós “o primeiro dia” de uma vida nova.

No caminho, as mulheres ainda se preocupam com os assuntos da morte de Jesus: quem rolará a pedra do túmulo, que é tão grande? (vv. 3-4). Mas o primeiro olhar já lhes revela a novidade: a pedra foi removida. O verbo se encontra naquilo que, em bom português, chamamos “voz passiva”. Ou seja, a pedra sofreu a ação de ser removida. Por quem? O texto não diz. É um recurso já conhecido nas Escrituras chamado “passivo teológico”, utilizado para expressar ações de Deus. Então, compreendemos: para Marcos, Deus mesmo removeu a Pedra do túmulo de Jesus. Diríamos hoje: o Pai ressuscitou seu Filho, removendo a pedra que o detinha no túmulo.

As mulheres entram no túmulo (v. 5) e se deparam com uma belíssima imagem desse Deus que ressuscitou Jesus: “um jovem vestido de branco, sentado ao lado direito”. “Jovem”: é o Deus da vida, do futuro, da esperança; do “primeiro dia” que ainda dará muitos frutos de vida. “Vestido de branco”: sinal de glória, de incorruptibilidade, da luz que brilhou no “primeiro dia” e chamou o mundo à existência no tempo. “Sentado à direita”: no lado da ação, demonstrando que ele agiu em favor daquele que foi ressuscitado dos mortos.

As mulheres se assustam. Como se não bastasse sua imagem, o “jovem” ainda fala com elas e suas palavras demarcam de maneira belíssima a fé da comunidade no Ressuscitado: “Procurais Jesus, o nazareno, aquele que foi crucificado? Ele ressuscitou! Não está aqui! Vede o lugar onde o puseram” (v. 6). O Ressuscitado é o mesmo Jesus crucificado, mas de um modo muito diferente. As mulheres buscam aquele que está morto; esse elas não encontrarão. Mas o encontrarão vivo, o mesmo Jesus a quem procuram morto. Há simultaneamente continuidade e descontinuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Na ressurreição, Jesus passa a uma vida diferente, plena. Não se trata de uma “reanimação de cadáver”, um retorno à mesma vida que precedeu a morte, mas de uma vida nova e real, cuja plenitude já transcende os limites do mundo.       O jovem as despede com um mandado de anunciar o Ressuscitado “aos discípulos e a Pedro” (v. 8). E continua: Jesus caminha à frente de seus discípulos para a Galileia – tal como caminhou à frente deles durante toda a sua vida, como Mestre. E os conduz, agora, à Galileia, lá onde tudo começou, lá onde se abriu para todos eles o caminho do discipulado, do seguimento. “Lá o vereis” – assim Marcos fecha a teologia de seu Evangelho: como é possível ver Jesus? Como saber “quem ele é”? Começando o caminho do discipulado atrás dele, seguindo-o desde a Galileia. Ele nos aguarda, na Galileia de nossa vida, na cotidianidade de nosso trabalho, nas labutas de nossas canseiras, para de lá nos conduzir a tudo aquilo que nossa vida pode ser.

As mulheres, porém, com medo, não dizem nada a ninguém (v. 8). E o Evangelho termina tal como começou: com um novo “segredo messiânico”, como um convite irrecusável a retomar o caminho com Jesus, a aprender de seu seguimento. As palavras não substituem o caminho, Marcos bem sabe. E, por isso, propõe que voltemos todos à Galileia e reiniciemos o caminho com o Mestre. “Lá o veremos”.

Jesus continua vivo, mas não como antes, nos limites da vida física. Talvez, esteja ainda mais vivo, capaz de habitar cada coração, de animar e consolar os discípulos no caminho que ainda trilham. Não o veremos mais com os olhos do corpo, mas com os olhos da fé; não ouviremos sua voz ressoar aos ouvidos, mas a voz de sua presença se imporá aos ouvidos do coração. Não seguiremos mais o Mestre que vai à frente nas estradas e ensina nas praias, mas a Deus que vive em nós, que nos conduz a partir de dentro. As mulheres não veem o corpo ressuscitado exatamente porque, para Mc, o Ressuscitado é tão vivo e evidente que não precisa das demarcações visíveis da matéria. Basta a palavra de Deus, do “jovem de branco ao lado direito”, para garantir que ele está conosco.

Os vv. 9-20 não fazem parte no texto primitivo do Evangelho de Marcos, são um “apêndice”, um acréscimo posterior. Dedicaremos a esses versículos nosso último Estudo, na próxima semana.

* * *

Jesus é o sol de nossa vida. Encontrá-lo e crer nele impõe à vida um colorido todo diferente, como luz que ilumina o que antes estava escuro. Não importa se entramos nesse caminho de discípulos quando ainda crianças, jovens, adultos ou idosos… será sempre o “primeiro dia” de um novo tempo a ser amadurecido, um caminho a ser reiniciado. Que reconheçamos o Ressuscitado nas Galileias de nossas vidas e estejamos prontos a segui-lo, sempre de novo.


Estudo anterior:   40. Do Grito ao Silêncio (Mc 15,20b-47)
Próximo estudo: 42. E deixou-se ver… (Mc 16,9-20)

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