As tentações e a tentação

E o Pai-nosso continua com o pedido sobre a tentação: “E não nos deixes cair em tentação”. Tal pedido mostra-se mais problemático e sempre levantou muitas discussões, até porque a tradução mais literal do grego seria “não nos submetas à tentação”, como se encontra em Mt 6,13, na Bíblia de Jerusalém. Mas, em nota, a mesma Bíblia traz a opinião de especialistas segundo os quais a tradução “não nos submetas à tentação” é incorreta, porque o sentido do verbo aramaico utilizado por Jesus é propriamente deixar entrar e não fazer entrar. “Não nos deixeis entrar ou cair em tentação” se aproximaria mais do sentido original da oração.

Mas em que consistem as tentações? No Antigo Testamento, as tentações são entendidas como provas enviadas por Deus. A caminhada que o povo fez no deserto, por exemplo, foi assimilada como uma provação: “Lembra-te de todo o caminho que Javé, teu Deus, te fez percorrer no deserto nestes quarenta anos, a fim de te humilhar e te provar para saber o que tinhas no coração” (Dt 8,2). O povo enfrentou vários desafios que o fizeram conhecer melhor a Deus e o seu projeto de salvação. Provas ou provações são circunstâncias próprias da vida nas quais devemos ficar firmes e mostrar nossa fidelidade ao Senhor; essas ocasiões purificam nossa relação com Deus, pois revelam se nosso amor a ele é interesseiro ou se ele permanece nas dificuldades. A prova ou a provação pode ser tomada como tentação quando, nessas dificuldades da vida, vacilamos e não conseguimos permanecer no caminho da fidelidade.

No Pai-nosso, cair em tentação tem o sentido de cair na infidelidade, por ocasião das tribulações, das pelejas da vida. Mas que ninguém pense que a tentação vem do Pai. A tentação da vida, o próprio Jesus a sofreu, e sabia que não vinha de seu Pai, porque, enquanto Pai, Deus não tenta os seus filhos. “Que ninguém diga ao ser tentado: ‘É Deus que me tenta’. Com efeito, Deus não pode ser tentado a fazer o mal. Ele não tenta ninguém. Mas cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e seduz” (Tg 1,13-14). Deus, o Pai compassivo e misericordioso, jamais submeteria seus filhos à tentação, o que revela o equívoco da tradução “não nos submetas à tentação”, a qual deixa a impressão de ser o próprio Deus aquele que tenta os seus filhos. Ao contrário, o Pai nos dá forças para que não sejamos vencidos pela tentação. “Deus é fiel; não vai permitir que sejais tentados acima de vossas forças, mas com a tentação vos dará o meio de sair dela e a força de suportá-la” (1Cor 10,13).   

Assim o próprio Jesus interpretou a tentação, que deve ser compreendida no sentido de Mt 26,41: “Vigiai e rezai para não cairdes em tentação, porque o espírito está disposto, mas a natureza é fraca”. Certamente, a oração do Pai-nosso se refere especialmente à grande tentação que consiste no fechamento a Deus e ao seu Reino, mas isso não elimina o pedido para vencer as pequenas tentações do dia-a-dia. O próprio Jesus sofreu esta tentação, a de se desviar de seu Deus e Pai e, portanto, de sua missão. Pedro sugere a Jesus esse mesmo desvio e Jesus lhe responde como fizera ao tentador: “Afasta-te de mim, Satanás! Teu modo de pensar não é o de Deus, mas o dos homens” (Mc 8,33). A tentação da qual o Pai protege os seus filhos é a dos tempos escatológicos, ou seja, a tentação do fechamento ao Reino de Deus que se manifesta na realização da fraternidade e solidariedade no mundo. A grande tentação é a da recusa de Deus, de seu amor, de sua justiça, de seu Reino de paz e alegria para todos. Jesus, referindo-se à tentação final, admoesta os seus discípulos: “vigiai e orai sem cessar para terdes a força de escapar de todas essas coisas que devem acontecer e de comparecer diante do Filho do homem” (Lc 21,36). O mestre ensina aos discípulos aquela oração que ele dirigiu ao Pai por Pedro: “mas eu roguei por ti, para tua fé não desfalecer” (Lc 22,32). No fundo, os discípulos aprendem com Jesus a pedir para que Deus seja sempre seu Pai, para que não se afastem jamais da graça de Cristo (cf. Gl 5,4).

Não nos deixeis cair

Não é possível viver sem ser tentado a fazer o mal ou a pecar. O ser humano carrega uma contradição interior, que Paulo chama de “concupiscência” ou “cobiça” (cf. Rm 7,8), que tem a ver com o termo carne. Esse termo ganha duas acepções mais importantes nos textos do apóstolo. Primeiramente, o termo significa a natureza humana, ou seja, o ser humano em sua condição de criatura, frágil e precária (cf. Rm 1,3; 4,1; 1 Cor 10,18). A palavra carne tem, ainda, uma conotação moral. Enquanto carne, o ser humano se sente inclinado ao pecado e situado na esfera de sua influência (cf. Rm 7,18). Paulo opõe vida segundo a carne à vida segundo o Espírito (cf. Rm 8,5-11; Gl 5,16-24). A carne não é má em si mesma, mas se torna má à medida que o ser humano decide construir a si mesmo e às suas relações sem referência ao Criador. Concupiscência é, portanto, egolatria, exaltação do próprio eu em detrimento de Deus e dos irmãos. É a afirmação de si pela posse das coisas, que assumem o lugar de Deus e fazem cair na idolatria (cf. Gl 6,3). Nesse caso, busca-se adquirir a glória humana (cf. 1 Ts 2,6; Gl 1,10), servindo às criaturas e não ao Criador (cf. Rm 1,25).

De fato, o egoísmo nos tenta em todos os momentos da nossa vida. Egoísmo entendido como decisão livre de servir só a si mesmo e aos próprios interesses. Não se trata, nesse caso, de uma doença psicológica designada como narcisismo. Isso é outra coisa. Aqui a questão é teológica. Paulo traduz essa tensão interior do ser humano de maneira insuperável: “Encontro em mim, pois, essa lei, quando quero fazer o bem, é o mal que se apresenta a mim. Pois em meu interior eu gosto da lei de Deus; mas sinto em meus membros outra lei, que luta contra a lei de minha mente e me prende à lei do pecado, que está em meus membros” (Rm 7,22-23).  O apóstolo dá graças a Deus por Jesus Cristo que o libertou da lei do pecado. A lei do Espírito que Jesus derrama sobre os corações dos seres humanos liberta da lei do pecado e da morte. “Os desejos da carne levam à morte, ao passo que os desejos do Espírito levam à vida e à paz” (Rm 8, 6-7). O ser humano, embora conserve sua tendência ao pecado e, por isso seja sempre tentado, conta com Deus que, em Jesus Cristo, o resgatou e salvou, dando-lhe o Espírito para vença a tentação e permaneça fiel a Deus.

Somos frágeis e condicionados por vários fatores (sociais, culturais, biológicos, religiosos). Nossa liberdade é sempre situada num contexto tão amplo e profundo que sequer conseguimos saber exatamente quem somos. No entanto, nos sabemos queridos e amados por um Deus cuja misericórdia é infinita e cujo amor nada pode vencer. Ele espera de nós uma resposta com “a liberdade de que somos capazes”. Percebemos em nós a tendência para o egoísmo e o pecado. E, no meio das tentações, pedimos ao Pai que não nos deixe cair, desfalecer. Contamos com a graça de Deus que jamais nos abandona. O mais importante é não cair no orgulho da autossuficiência e a gente confiar que nenhum mal é mais poderoso do que Deus. Portanto, pedimos para não cairmos quando tentados. Mas, se cairmos, não nos deixemos levar pelo desespero. Santo Afonso afirma que o pecado mais grave costuma ser o que vem depois do pecado, ou seja, o desespero que nos faz pensar que Deus não nos perdoará quando, na verdade, ele nos acolhe com o seu perdão, dado definitivamente a todos em Cristo e atualizado continuamente pelo Espírito. “Filhinhos, isto vos escrevo para que eviteis o pecado. Mas se alguém pecar, temos como advogado perante o Pai, Jesus Cristo, o justo. Ele é vítima de expiação por nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro” (1Jo  2,1-2).


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